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O caso do Cisma do Ocidente e o erro do hiperpapalismo, ou: como cortar o galho onde se está sentado. Uma resposta a Eugênio Lima (por Rafael Fiuza).

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Os continuístas e sedevacantistas, paradoxalmente, cortam o galho em que estão assentados ao justificar uma quebra de aplicação mecânica e ordinária da norma apelando para a complexidade interna da lei. Salve Maria! A página Todo dia um continuísta passando para a heresia, por meio de seu criador, Rafael Fiuza, veio trazer uma resposta a um vídeo de um sedevacantista sobre um tópico debatido na página. Escolhemos fazer a resposta por escrito por acreditarmos que assim haverá uma melhor compreensão. Pedimos perdão pelo texto longo a seguir, mas solicitamos a atenção e a benevolência dos leitores. Imaginamos que nosso humilde testemunho poderá contribuir para esclarecer alguns problemas do meio católico, especialmente os erros sobre o que de fato significa a submissão dos fiéis à hierarquia, algo muito mal compreendido por continuístas e sedevacantistas, que partilham do mesmo mal jurídico e voluntarista sobre o Papa e os bispos. Que Cristo Nosso Senhor nos auxilie. Cremos que seria muit...

O erro dos continuístas sobre a doutrina da indefectibilidade (de Nicolas Lisboa)

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  Existe uma crença equivocada de alguns católicos sobre a doutrina da indefectibilidade, repetida por Dom Rifan e outros conservadores, que acaba identificando a noção de "corrupção na fé na Igreja" com "desvio doutrinário da hierarquia"; daí o tradicionalismo soar absurdo do ponto de vista eclesiológico, por pressupor uma prevaricação geral e habitual no exercício docente dos mestres autorizados da Igreja. Isso eu nomeei de "argumento da justificativa econômica", que é aquele argumento de que o conteúdo doutrinário da promessa de Cristo n'O Evangelho de São Mateus contém, substancialmente, a impossibilidade de erro habitual do Magistério em toda a sua modalidade, mesmo sob a forma do Magistério meramente autêntico. Ou seja, a assistência divina protegeria o Corpo Episcopal como um todo de cair em erro, no que diz respeito à guarda do depósito revelado e à sua fiel proclamação (e, infelizmente, eles têm dificuldade em dissecar o grau proporcional dess...

As limitações da hermenêutica da continuidade na defesa da fé tradicional (de Nicolas Lisboa)

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  Cardeais Raymond Burke, Gerhard Muller e Robert Sarah participam em uma conferência sobre Missa Tridentina na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma.  1.1 Os problemas também estão na hermenêutica da continuidade como critério   Muito se fala de como os conservadores distorcem a teologia oficial dos intérpretes autorizados do Vaticano II, mas, para ser justo, é preciso dizer que muitos problemas do conservadorismo continuísta derivam de lacunas e obscurecimentos da própria hermenêutica de Bento XVI, que é insuficiente para ser utilizada como recurso de justificação do Concílio. Não é difícil notar equívocos na apropriação conservadora dessa hermenêutica ratzingeriana, que ignora por que o Papa a nomeou como "reforma na continuidade" e não apenas "continuidade". Como recorda Thomas Guarino, o método de Ratzinger não é uma afirmação simplista de permanência, mas uma síntese entre elementos de continuidade e mudança. Lindbeck e Lakeland ressaltam a i...

Uma Análise Geral e Breve do "Discurso da Reforma do Homem Interior" (de Eduardo Novais)

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  "(...)É uma qualidade própria de Deus, incomunicável a qualquer outro senão a ele, ser senhor de si mesmo, não ter nenhuma outra regra senão a sua vontade e de governar-se somente pelas leis de seu poder absoluto e soberano. E é tão justo, quanto o é necessário, que aquele, que não é dominado por ninguém, domine por sua onipotência todas as criaturas Mas esta primeira chaga do pecado, que feriu o primeiro homem e o tornou como um escravo fugitivo diante da face de seu mestre, lhe imprimiu em todas as suas afecções uma ardente paixão de imitar esta soberania de Deus e eminência de seu ser; e, por esta paixão, assim traça uma imagem tenebrosa através dos seus crimes e desordens, caso venha a pecar, estando só ou acompanhado. Assim, vemos na vida de todos os homens qual era o desejo do primeiro homem, quando ele se afasta da obediência que devia a Deus, pois as ações das crianças carregam todas as marcas da falta de seu pai. (...)" (Cornelius Jansenius, Discurso da Reforma do ...

A incompreensão de Pe. José Eduardo sobre a doutrina da indefectibilidade (de Nicolas Lisboa)

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  A doutrina da indefectibilidade Igreja significa perpetuidade, manutenção de sua identidade e finalidade escatológica, e nenhum desses três aspectos é negado em teoria ou em prática pelo tradicionalista, ao contrário do que Pe. José Eduardo quer imputar. A impossibilidade da totalidade dos fiéis se perder é parte da necessidade da perpetuidade, mas não se identifica com a possibilidade de desvio doutrinário da hierarquia na modalidade de ensino não infalível, já que a indefectibilidade da estrutura colegial e primacial da Igreja é uma "perfeição participada". Esse tem sido outro grave erro da apologética continuísta que repete opiniões teológicas sobre a segurança na adesão ao ensino magisterial como se tivesse o mesmo grau de autoridade vinculativa e presunção de verdade que uma doutrina autorizada. A doutrina da indefectibilidade da Igreja, que diz que a Igreja não falhará em sua missão de salvar as almas, preservando a verdade do evangelho ao longo do tempo, não sustenta...

Erros de Carlos Alberto sobre a Dignitatis Humanae (de Nicolas Lisboa)

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  Carlos Alberto demonstra pouco entendimento sobre a questão da liberdade religiosa ao reproduzir uma leitura "suareziana" (reiterada por Thomas Pink) da Dignitatis Humanae. Essa interpretação se baseia na doutrina de tolerância que foi rejeitada nas atas do documento, a mesma que fez com que o Cardeal Ottaviani fosse desaprovado pelos principais redatores da DH. 1. A liberdade religiosa não é: a) Um desenvolvimento contínuo dentro do paradigma da tolerância, como se fosse uma forma qualificada e abrangente de falar sobre a tese tradicional da ausência do uso do poder temporal em matéria religiosa fora da cristandade, conforme imaginam o Cardeal Journet, o Padre Valuet e o Padre Harrison. 2. A liberdade religiosa é: a) Um arquivamento do padrão de tolerância do direito civil neoescolástico do Magistério ordinário pré-conciliar e uma reorientação normativa, o que implica uma não-identidade conceitual (contra as pretensões de Utz) e uma contradição fenomênica com práticas ante...

A má compreensão dos católicos sobre a impossibilidade de erro habitual no Magistério Ordinário (de Nicolas Lisboa)

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  Assim como existem os minimalistas que imaginam que o assentimento obrigatório ao magistério somente deve ocorrer na adesão de certeza da fé, como nos ensinos definitivos, a apologética continuísta jurídico-voluntarista cai no erro da inflação doutrinária e maximalista da autoridade docente do Magistério meramente autêntico por uma má leitura dos teólogos pré-conciliares (algo muito mais bizarro é cometido pelo Pe. Bernard Lucien). Acaba por criar um paralelo absoluto do conceito de inerrância "global" da Igreja, tratado nos teólogos pré-conciliares, que é o que chamamos hoje de indefectibilidade, com uma noção particular de "impossibilidade prática" de desvio da maioria dos sujeitos magisteriais no magistério não infalível. Eles interpretam isso como sendo a teoria da "segurança infalível" do Card. Johann Franzelin e da "prudência infalível" do Card. Charles Journet, a ponto de reduzir excessivamente a possibilidade remota de erro no Magistéri...