As limitações da hermenêutica da continuidade na defesa da fé tradicional (de Nicolas Lisboa)
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| Cardeais Raymond Burke, Gerhard Muller e Robert Sarah participam em uma conferência sobre Missa Tridentina na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma. |
1.1 Os problemas também estão na hermenêutica da continuidade como critério
Muito se fala de como os conservadores distorcem a teologia oficial dos intérpretes autorizados do Vaticano II, mas, para ser justo, é preciso dizer que muitos problemas do conservadorismo continuísta derivam de lacunas e obscurecimentos da própria hermenêutica de Bento XVI, que é insuficiente para ser utilizada como recurso de justificação do Concílio. Não é difícil notar equívocos na apropriação conservadora dessa hermenêutica ratzingeriana, que ignora por que o Papa a nomeou como "reforma na continuidade" e não apenas "continuidade". Como recorda Thomas Guarino, o método de Ratzinger não é uma afirmação simplista de permanência, mas uma síntese entre elementos de continuidade e mudança. Lindbeck e Lakeland ressaltam a importância de entender a intenção doutrinária do Concílio mais pelas novidades do que pelas reiterações, embora essa visão não deva ser unilateral como a dos progressistas. A leitura conservadora que rejeita o espírito que informa a letra erra o alvo, mas tais distorções nascem de limitações do método original, que trata a descontinuidade apenas como adaptação a novos contextos e evita critérios qualitativos sobre as reversões proposicionais, que é a discussão sobre o valor das reformas e não simplesmente a adequação eclesiológica. Avery Dulles tenta corrigir isso via Congar, mas o esforço permanece insuficiente, a meu ver.
A hermenêutica da continuidade busca ser uma alternativa à abordagem progressista da ruptura, que foca no estudo histórico-crítico e lê os textos como ruptura. Porém, o método de Ratzinger ainda recai em uma dicotomia entre situações históricas contingentes, tratando o Concílio no âmbito da linguagem pastoral, e os fundamentos nucleares da doutrina, que são princípios permanentes que informam o modo de expressão. Essa é uma regra de análise precária, pois, como aponta Lieven Boeve, a distinção entre a verdade como conteúdo e a linguagem como mera forma não é sustentável nem realizável. Tal abordagem também obscurece o radicalismo da mudança de paradigma do Vaticano II, que é muito mais profundo do que a simples expressão da fé em novos momentos históricos, conforme observa O'Malley ao apontar falhas no discurso de Bento XVI em 2005.
A alocução de Bento XVI sobre princípios e circunstâncias oferece um caminho estreito para o conservador, sendo uma forma empobrecida de buscar fundamentos eclesiológicos para justificar evento conciliar. Essa dicotomia é usada pelos conservadores para negar mudanças reais frente aos tradicionalistas, como fazem os padres Brian Harrison e José Maria Iraburu ao reduzirem o ecumenismo e a liberdade religiosa a novas expressões linguísticas do ensino pré-conciliar. A necessidade de um método científico para julgar reformas exige mais do que a hermenêutica de Bento XVI ou o desenvolvimento doutrinário de São John Henry Newman, que podem ser úteis, mas são mal utilizados. Não surpreende que usuários dessas ferramentas tenham sido acusados de petição de princípio por Mons. Brunero Gherardini e Dom Athanasius Schneider: é necessário justificar, não simplesmente pressupor.
1.2 O reducionismo na apropriação conservadora da hermenêutica da continuidade
O conservadorismo é uma importante força de resistência contra o progressismo eclesial, e isso deve ser levado em conta pelos tradicionalistas. Porém, é necessário dizer que a hermenêutica da continuidade conservadora se mostra incapaz de lidar adequadamente com a amplitude da descontinuidade gerada no Vaticano II, pois não possui recursos suficientes que abarquem o problema da conexão entre a teologia e o contexto formado pelo evento conciliar; a tentativa conservadora de neutralizar elementos teológicos que informaram diretamente a intenção conciliar, embora possa ser louvada à primeira vista por um tradicionalista esclarecido, tem de ser denunciada como um projeto fracassado por ser extremamente tímida e reducionista. É verdade que tanto os documentos do Vaticano II quanto os intérpretes conservadores que reproduzem o neoagostinianismo de Joseph Ratzinger estão em conformidade quando desafiam alguns dos pressupostos ou consequências negativas da pós-modernidade, como o secularismo, o niilismo e o relativismo, típicos da cultura iluminista radical, contrastando-os com a cultura da fé cristã (algo que o papa agostiniano Leão XIV também enfatiza). Essa linguagem está atestada na comparação de Bento XVI entre a situação da Europa pós-moderna e a do Império Romano antes da sua queda. Pe. José Maria Iraburu, Pe. Brian Harrison e muitos outros conservadores são valentes defensores da objetividade da verdade e da autoridade singular da fé católica contra as demandas da cultura pós-moderna, mas a aproximação da intenção e da recepção conciliar com o pensamento moderno é muito mais radical do que o conservador é capaz de inferir com o método hermenêutico de Ratzinger, e necessitará sempre de complementação com um discurso externo à alocução de 2005 e aos próprios documentos conciliares.
O programa de contextualização do Vaticano II implica não só uma mudança na forma como a fé é expressa e um crescimento da compreensão do depósito da fé, mas exige também uma mudança na dimensão teológica (o continuísta Pe. Bernard Lucien é um dos críticos da abordagem teológica dos textos conciliares), e não é por acaso que o Papa Francisco insistiu em uma urgente mudança de paradigma teológico. O Concílio autoriza, embora se possa discutir em que grau ou se isso seria apenas uma consequência indesejada, um processo contínuo de recontextualização na linguagem teológica, e não apenas que a verdade doutrinária deva ser relacionada ao contexto. Assim, a discussão entre um conservador e um seguidor da epistemologia de Karl Rahner, por exemplo, é muito mais de procedimento metodológico na teologia do que de repetição de conteúdo de documentos oficiais. Resumidamente, os conservadores estão errados se imaginam que a hermenêutica beneditina implica por si mesma negar que tenha havido mudanças radicais e profundas no Concílio Vaticano II, ou mesmo que tenha havido uma união dos bispos conciliares com o espírito moderno. Existe uma importante oposição conservadora a um contexto pós-moderno que é hostil à reivindicação cristã da verdade, como a dos Cardeais Müller, Sarah, Zen e Burke, mas que não encontra espaço nos ambientes católicos dominados por correntes de teologias correlacionais, como as de Rahner e de E. Schillebeeckx, que aceitam os padrões epistemológicos da época moderna para falar da fé católica e buscam traduzir a essência do cristianismo na linguagem e cultura da época.
Não é que os conservadores não aceitem um contexto histórico para os ensinamentos doutrinários, já que a própria ideia beneditina de descontinuidade dentro da reforma exige a leitura do funcionamento da Igreja em diferentes contextos e condições, e isso frequentemente é utilizado contra tradicionalistas, mas a teologia correlacional enxerga a ênfase em princípios fundamentais e fórmulas fixas como um restauracionismo por desatenção à intenção conciliar. A partir daí, há a ênfase em critérios imanentes do ser humano, como dignidade e liberdade, justiça social, etc., em que todos os objetivos humanistas tornam-se novos loci theologici. Clodovis Boff, ciente da necessidade da justificação teológica, critica as ideias das teologias correlacionais em sua trilogia "Igreja em Subida".
O discurso de 2005 de Bento XVI, como diz John O'Malley, é uma alocução, não um tratado teológico elaborado. O quão ampla e profunda, ou quão restrita e superficial, foi a reforma do Vaticano II é um julgamento que transcende a adoção do método hermenêutico beneditino, e os conservadores precisam compreender isso para não tomarem como certo aquilo que deveria ser justificado.

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