Uma Análise Geral e Breve do "Discurso da Reforma do Homem Interior" (de Eduardo Novais)

 


"(...)É uma qualidade própria de Deus, incomunicável a qualquer outro senão a ele, ser senhor de si mesmo, não ter nenhuma outra regra senão a sua vontade e de governar-se somente pelas leis de seu poder absoluto e soberano. E é tão justo, quanto o é necessário, que aquele, que não é dominado por ninguém, domine por sua onipotência todas as criaturas
Mas esta primeira chaga do pecado, que feriu o primeiro homem e o tornou como um escravo fugitivo diante da face de seu mestre, lhe imprimiu em todas as suas afecções uma ardente paixão de imitar esta soberania de Deus e eminência de seu ser; e, por esta paixão, assim traça uma imagem tenebrosa através dos seus crimes e desordens, caso venha a pecar, estando só ou acompanhado. Assim, vemos na vida de todos os homens qual era o desejo do primeiro homem, quando ele se afasta da obediência que devia a Deus, pois as ações das crianças carregam todas as marcas da falta de seu pai. (...)" (Cornelius Jansenius, Discurso da Reforma do Homem Interior, trad. Andrei Venturini Martins, p. 87) 

Neste texto, gostaria de falar sobre o livro Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, e buscar expor o que está presente nele para, assim, responder às seguintes perguntas: 

1. Do que trata o livro?
2. É seguro, isto é, está livre de conteúdo heretizante?
3. O que podemos retirar da leitura? 

Outras perguntas que possam surgir na sua consciência, também espero sanar. No entanto, se ainda com isso estiver em dúvida sobre o livro, gostaria aqui de fornecer apenas uma visão geral: tanto para aqueles que pretendem ler o livro e desejam estar cientes do que poderão encontrar, quanto para aqueles que não querem ler (por qualquer razão que seja), mas desejam saber sobre a obra para discutir seus temas sem o risco de "palpitar".

Pretendo, portanto, expor aqui as ideias centrais comunicadas pelo livro de Jansenius e deixar a cargo do leitor seu juízo. Poderia eu discutir minuciosamente certas passagens, comentários e notas, fazendo ou providenciando um estudo ativo do livro e, assim, discutir mais sobre seus conceitos. Mas creio que isso demandaria um texto mais exaustivo ao leitor, o que gostaria de evitar o quanto posso. Deste modo, se me for muito pedido, farei uma "parte 2" (ou mais, se necessário), caso seja de grande interesse daqueles que leram. Dito isso, vamos ao livro.

Antes de tudo, falemos sobre seu polêmico autor: Cornelius Jansenius, e brevemente sobre o tema do jansenismo, doutrina da qual foi o pai.
Corneille Otto Jansen nasceu, segundo fontes públicas, em 28 de outubro de 1585 em Acquoy, atuais Países Baixos (ou Holanda), e morreu em 6 de maio de 1638, vítima de Peste Negra.
Foi Doutor em Teologia na Universidade de Louvain (na qual iniciou os estudos em 1602) e sagrado bispo na diocese de Ypres, na Bélgica, em 1635. Outros detalhes de sua biografia, assim como do complexo movimento que ele formou (e a controvérsia de Sorbonne), podem ser acessados em sua biografia.

Sua doutrina, expressa no livro *Augustinus*, de 1310 páginas (publicado postumamente em 1640), foi condenada como herética por três papas. Isso ocorreu especificamente devido a 5 proposições extraídas dele, que o tornam uma forma de "calvinismo católico".

Disto, temos em mente que o jansenismo é perigoso e foi grandemente combatido até ser esquecido. Poder-se-ia argumentar que, tendo Jansenius morrido em comunhão com a Igreja, ele não teve culpa ativamente na heresia, como fala Andrei Venturini no seu comentário: "...Em seu testamento, confere à Santa Sé o julgamento de toda sua obra. Jansenius, assim, não pôde assistir em vida à publicação de seu livro, ocorrida em 1640, (...) em meio aos protestos jesuítas...". Porém, isto não nos interessa aqui.

Mas onde o livro entra nisso, além do fato de o autor ser o mesmo de um livro condenado? Segundo o tradutor da obra, Andrei Venturini, o texto foi originalmente redigido em latim em 1628, "a fim de executar a reforma de um mosteiro beneditino" (Comentário do tradutor, p. 17). Era, portanto, um texto privado aos monges, que se tornou público após a morte do autor.

No "Aviso ao Leitor", o editor da tradução francesa de 1644 (Robert Arnauld d'Andilly) nos diz do que se trata o livro: "...é um excelente resumo daquilo que encontramos de mais belo em Santo Agostinho sobre as três concupiscências...", aqui fazendo referência a 1Jo 2, 16: "Não há nada no mundo senão a concupiscencia da carne, a concupiscencia dos olhos e o orgulho da vida". O ponto de partida é, portanto, a passagem da 1ª epístola de São João e, por fim, o comentário do *Doctor Gratiae* sobre esse trecho. Trata-se de um livro devocional, ainda que com certas características de um tratado teológico-filosófico.

Nele, o bispo de Ypres pretende mostrar que, pelo nosso estado corrompido, sem o auxílio divino e apenas por nossa própria vontade, somos incapazes de vencer o pecado: "De forma que, assim como as árvores que envergamos com grande esforço se voltam com mais violência para o seu estado natural, no momento em que a mão que as mantém as solta, do mesmo modo, em um sentido contrário, depois que a natureza humana foi corrompida e curvada pelo pecado, ela não pode mais ser redirecionada senão por uma força extrema; no mesmo instante que a deixamos entregue a ela mesma, e a abandonamos, a natureza precipita-se por seu próprio peso dentro do vício de sua origem(...)" (Cornelius Jansenius, Prefácio, p. 51).

Porém, esse diagnóstico não é terminal para Jansenius: "(...)Mas não devemos nos admirar que esta lei esteja gravada tão profundamente em todas as partes da natureza, já que nela vemos reluzir traços tão claros de ordem, segundo a qual o Criador governa as criaturas que se distanciaram dele e que caíram na desobediência. 
Porque não há nada de mais magnífico e mais ilustre em todas as suas obras do que ter de tal modo oposto a sua graça ao pecado do homem, que foi criado à sua imagem: o pecado levou o homem em direção ao nada, de onde ele foi tirado, mas a sua graça o fez voltar ao autor de seu ser e à fonte de todos os bens. (...) a fim de contribuir com aquilo que posso, para vos ajudar um pouco em vossos principais exercícios, pelos quais tendes em direção ao céu, resolvi dizer-vos alguma coisa, (...) não da excelência, nem da reforma da disciplina monástica, mas da corrupção e da renovação do espírito humano, que é na sua totalidade o fruto da disciplina regular, e explicar detalhadamente de qual maneira o homem caiu na corrupção, qual é a via mais curta pela qual ele pode retornar a seu princípio e recuperar a perfeição e a pureza de sua origem..." (p. 51-55).

Depois de analisar o homem pré e pós-queda, ele começa a nos alertar^ sobre as três tentações (as quais compara com as tentações de Cristo pelo Diabo no deserto).
As concupiscências são as primeiras das tentações; seu modo de combatê-las é a temperança da carne (para a volúpia) e a temperança do espírito (para a curiosidade).

Por fim, quando o homem tiver ultrapassado essas duas tentações, há de combater por último a mais sutil e "perniciosa": o orgulho. Mas aqui, trata-se de um orgulho que surge tanto com a vanglória de ter vencido as duas tentações, quanto do orgulho espiritual no qual o homem se rejubila com sua própria potência. É como se dissesse a si mesmo: "venci o pecado finalmente, e por meu próprio mérito!". A esse respeito, Jansenius afirma que Deus insere dificuldades e tribulações para que a alma do fiel "(...)Enfim, vendo que suas próprias forças, para fugir do mal, adquirir o bem e conservá-lo, não são senão fraqueza, e que este fundamento de sua vã confiança está arruinado por todas as partes, eles não são mais orgulhosos como inicialmente e curam-se pouco a pouco desta doença da alma, a fim de que depois de todas estas provas aquele que se gloria não se glorie senão no Senhor [1Cor 1, 31]".

Com isto, termino a análise. Infelizmente, haveria muito o que comentar de outros trechos do livro e certas partes que o leitor verá por si mesmo serem complicadas e, por vezes, não livre de erros; especialmente uma onde Jansenius dá a entender que Deus faz o homem pecar para retirar-lhe o orgulho. 
Mas espero que, com esse artigo, eu possa ter elucidado o livro e respondido às perguntas iniciais da minha exposição. Não busquei aqui condenar nem defender o texto, mas apenas estabelecer um panorama sobre o que ele fala; e isto espero ter cumprido. 

P. S.: Para quem está interessado em saber mais sobre o livro, recomendo dois vídeos dos quais Andrei Venturini participa: 
(https://youtu.be/OqR8qLtKeKM?si=a0EOJqWG3wBtZznK), a partir de 37:05 até 51:53, a respeito do livro e o objetivo do autor; 
Também há esse corte de uma entrevista do Venturini em um podcast: (https://youtu.be/P9PE2scz1bg?si=C4h3eEwG2YfGcWs5).

Pax et bonum!

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