O erro dos continuístas sobre a doutrina da indefectibilidade (de Nicolas Lisboa)
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Existe uma crença equivocada de alguns católicos sobre a doutrina da indefectibilidade, repetida por Dom Rifan e outros conservadores, que acaba identificando a noção de "corrupção na fé na Igreja" com "desvio doutrinário da hierarquia"; daí o tradicionalismo soar absurdo do ponto de vista eclesiológico, por pressupor uma prevaricação geral e habitual no exercício docente dos mestres autorizados da Igreja. Isso eu nomeei de "argumento da justificativa econômica", que é aquele argumento de que o conteúdo doutrinário da promessa de Cristo n'O Evangelho de São Mateus contém, substancialmente, a impossibilidade de erro habitual do Magistério em toda a sua modalidade, mesmo sob a forma do Magistério meramente autêntico. Ou seja, a assistência divina protegeria o Corpo Episcopal como um todo de cair em erro, no que diz respeito à guarda do depósito revelado e à sua fiel proclamação (e, infelizmente, eles têm dificuldade em dissecar o grau proporcional dessa proteção negativa do Espírito Santo, além de muitas vezes confundirem totalidade com majoritariedade ou consensualidade).
Basicamente, é o seguinte:
1. A economia da salvação exige o ensino e o assentimento de doutrinas ortodoxas para que os fiéis não se desviem da fé, ainda que tais doutrinas autorizadas não sejam infalíveis.
2. O tradicionalismo pressupõe que a Igreja (isto é, o Corpo Episcopal e a Suprema Autoridade da Igreja) errou no Vaticano II ao propor doutrinas autorizadas para todos os fiéis.
3. Então, o tradicionalismo negaria a doutrina da indefectibilidade no que tange ao Magistério e seu desdobramento na Igreja discente, rejeitando a assistência divina na Igreja prometida aos sucessores dos apóstolos.
Só que essa justificativa econômica, por mais persuasiva que pareça a princípio, a Igreja nunca a ensinou, ao menos jamais a impôs como um critério normativo acerca da doutrina da indefectibilidade. Existem, sim, algumas opiniões teológicas a respeito dos limites razoáveis de conjecturar o erro magisterial, como a de Francis Sullivan e alguns outros manualistas, mas essas formulações sequer têm status de ensino comum. Obviamente, existem ensinos objetivos da Igreja acerca da relação do Magistério com a doutrina da indefectibilidade. Vários elementos da economia da salvação no Magistério são doutrinas eclesiológicas da Igreja que os católicos não podem negar, a saber: a incorruptibilidade dos atos do Magistério infalível (ou seja, é impossível que um ensino solene do Magistério Extraordinário ou definitivo do Magistério Ordinário e Universal seja falso em termos de valor de verdade) e a impossibilidade de a totalidade dos fiéis se desviar da fé infalível (sempre haverá quem professe a fé ortodoxa). Nenhuma dessas doutrinas, porém, pressupõe em si "impossibilidade de erro habitual do Magistério meramente autêntico" ou "impossibilidade de a maioria dos bispos cair em erro doutrinário". Estas duas são opiniões teológicas elaboradas a partir da doutrina da indefectibilidade.
Como diz Richard Gaillardetz:
"O fato de a igreja ser preservada pelo Espírito em verdade da indefectibilidade não significa que o evangelho não sofrerá com uma apresentação inadequada e, às vezes, até mesmo equivocada, nem nega que, em um determinado momento na igreja, alguns membros individuais possam se afastar fundamentalmente do evangelho. Indefectibilidade significa apenas que pelo menos alguns dos membros da igreja sempre viverão em fidelidade substancial ao evangelho."
Francis Sullivan reforça:
"Dizer que a Igreja é indefectivelmente santa significa que nunca lhe faltarão membros que vivam realmente na graça de Cristo; dizer que a Igreja é indefectível na fé significa que nunca lhe faltarão membros que mantenham a fé cristã na sua pureza. Nenhum membro individual, nem mesmo o papa, como pessoa privada, tem tal garantia de santidade ou perseverança na verdadeira fé. A garantia é dada à Igreja, e sempre haverá aqueles em quem ela se realiza concretamente. Isto significa, naturalmente, que é impossível que toda a Igreja, em todos os seus membros, possa alguma vez carecer da graça santificante ou da caridade, ou possa alguma vez cair no tipo de erro na fé que a colocaria em contradição com o evangelho de Jesus Cristo."

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