Patriotismo e nacionalismo em Gustavo Corção (de Nicolas Lisboa)

Infelizmente, a crítica justa à condição espiritual adversa do Brasil contemporâneo se converte em complexo de vira-lata por quem não dá a devida atenção à enorme diferença, não só de grau, mas também de natureza, entre o autoengano romantizado do nacionalista e a reverência patriótica de um justo realista. Esta crítica termina categorizando o egocentrismo cultural e os elogios dissimulados à cultura de massa no mesmo quadrante do amor sincero aos símbolos nacionais.

O que deveria ser uma denúncia contra o espírito de mediocridade que domina a produção cultural e intelectual no Brasil há anos, que rebaixa simultaneamente a qualidade dos executores e o discernimento dos receptores, torna-se uma idealização de caráter pessimista, afogada no mar de ressentimento pessoal e demonização da própria terra natal.

Mas o reconhecimento da atmosfera negativa do Brasil exige uma atitude de negação? Ou devemos tornar-nos nacionalistas se tivermos interesse individual e coletivo de construir uma nação saudável? A resposta para as duas questões é não, e a razão é que a primeira padece de afetação neurótica e a segunda é uma proposta político-institucional que hipertrofia o mero desejo de reforma.

O pensamento vira-lata, ao contrário do que imaginam seus detentores, é um sintoma e não uma fuga do espírito de rebaixeza da nacionalidade brasileira. Estamos lidando com um tipo de discurso autodepreciativo generalizado que remonta às raízes coloniais, que alcançou seu auge em teorias antropológicas racialistas, como as de Oliveira Viana e Monteiro Lobato, e é atualmente reproduzida pela esquerda identitária (que diz que o Brasil é principalmente produto de roubo de terra dos indígenas, estupros e todo tipo de interesse colono pouco honesto) e a direita liberal-conservadora (que tem como única referência o contexto anglo-americano como um ambiente propício de substituição dos elementos ibéricos).

Como diz Aurélio Schommer, descrevendo essa mentalidade tipicamente nacional:

Se os portugueses da atualidade se colocam como vira-latas em relação à Europa de ingleses, franceses, flamengos e alemães supostamente pedigrees, os brasileiros endossam tal autodepreciação. Mais. Tomam-na como a causa da própria autodepreciação. Seriam os brasileiros inferiores por terem sido 'colonizados' por portugueses, como se tivesse havido algum dia um 'nós e eles', como se o projeto de nação sul-americana não fosse um projeto de colonos portugueses, mas de elites verdadeiramente nativas. (Schommer, 2012, pág. 76)

Consciente da realidade substancialmente desviada do Brasil e rejeitando a opção derrotista das mentes vira-latas, em "Patriotismo e Nacionalismo", Gustavo Corção professa também uma séria oposição à proposta alternativa e flagrantemente artificial do nacionalismo, que projeta uma realidade futura com modelos pré-fabricados e vive por anunciar um platonismo latente como forma política.

O nacionalismo representa a identidade nacional não só como a busca de um projeto abstrato e a instauração de uma ordem bairrista pela tomada de poder do Estado, como uma revolução institucional de cima para baixo, mas também a conformidade conveniente com a cultura de massa do momento. Com a astúcia em tentar manter algum resquício de percepção da realidade concreta, se apega ao gosto popular local ou à descrição geográfica genérica. 

A confusão entre símbolo universal e gosto regional generalizado produz o estranho diagnóstico que reduz a cultura do país ao futebol, carnaval, samba, praia e outras tantas ferramentas de entretenimento e lazer comuns. Esses elementos pouco dizem de significativo sobre a tradição e herança de uma nação, e esses recortes mais ajudam a caricaturar a população e justificar a atual condição do que inferir questões humanas essenciais por referência às propriedades regionais. O pão e circo do nacionalista é prometer o pão numa realidade vindoura, com nosso próprio trigo e com padeiros nativos, e a invenção fingida de que os circos brasileiros são melhores do que os ianques.

Uma boa forma de compreender a questão é imaginar o amor que você tem (ou deveria ter) pelo seu pai e mãe, mesmo que eles tenham defeitos morais ou talvez uma personalidade problemática em alguns casos. O dever de amá-los não é baseado em suas falhas, mas no vínculo filial, fruto da própria condição pessoal de ser filho. O nacionalista transformaria esse amor em uma busca militante de um modelo particular de paternidade idealizada, e por outro lado imporia os defeitos dos pais como símbolo universal da familiaridade, já o vira-lata resumiria a própria obrigação amorosa apenas pela condição dos bons serviços paternos prestados.

Gustavo Corção, sabiamente, descreve o patriotismo como uma virtude e o nacionalismo como um vício. O nacionalista propõe um egoísmo coletivo, um espírito patrimonialista de liderança centralizada, o patriota ama a comunidade política a que pertence de maneira honrosa e altruísta. É mais do que possível zelar pelo sentimento patriótico sem ser ideologicamente nacionalista, é também um dever moral do homem.





REFERÊNCIAS:

CORÇÃO, Gustavo. Patriotismo e nacionalismo. Vide Editorial, 2023.

SCHOMMER, Aurélio. História do Brasil Vira-lata. Casarão Do Verbo, 2012.

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