A ética do dever e a mentalidade católica atual
Um fenômeno que já acontece a algum tempo no meio católico, sobretudo o da bolha de internet, é um grave problema na dinâmica entre lei (ou norma), autoridade e consciência individual. As relações entre a vida do leigo – e até mesmo do sacerdote – e esses termos impactam a forma como se produz uma vida comunitária, sobretudo no âmbito da catequese, e também como se trata o próprio vinculo do individuo com a vida espiritual, com a Igreja – enquanto organismo espiritual e ordenado– e com o próprio Deus.
É preciso
explicar um conceito importante, para partimos ao problema de fato e tudo ficar
mais claro, algo incorporado na consciência dos fiéis chamado de “ética do
dever”. Não pretendo me aprofundar tanto e peço também como prévia uma certa
noção de moralidade a fim de que o objetivo não seja perdido. A ética do dever,
de maneira bem resumida, consiste na ideia de que as ações práticas devem estar
ligadas a um conjunto de normas e princípios gerais, sendo estes condutores de
seu pensamento e de cada atuação da sua vida social.
A
capacidade do discernimento e juízo é colocado sob o grande guarda-chuva das
regras, e a bondade é conceituada a partir do parâmetro do que a norma
considera como correto. Sendo assim, para aquele que segue este tipo de ética, tais
diretrizes são consideradas obrigatórias porque são elas que definirão a
conduta do indivíduo. Portanto, o legalismo se torna a raiz, porque se reflete
também não só apenas a “estatutos” morais como também as leis civis/criminais
de uma nação, gerando um sentimento de autossatisfação – e até vaidade- no
fiel/cidadão por seguir tudo da “maneira certa”.
Este
modo de pensar penetrou de maneira rápida no meio católico. Sem pretender
entrar nas causas disso, o fato é que, muitos tem a percepção do catolicismo de
maneira jurídica, seguindo a ética do dever, como se a moralidade fosse a
adesão a uma regra extrínseca e comportamental, que busca, por exemplo, nos
Santos, falas do Papa e até mesmo na doutrina (vista sob esta ótica) para
construírem sua moral e saber o que fazer. Até na sua forma de confissão,
buscando manuais que sejam mais detalhados possíveis para sua consciência não
acabar colapsando caso não tenha a informação que procura, o que eventualmente
acontece, gerando uma mente doente e/ou escrupulosa.
Existem alguns grupos, os quais aderem a este
“estilo” de catolicismo, por exemplo pessoas cujo as vidas foram absolutamente
desordenadas tanto do ponto de vista da moralidade quanto da espiritualidade e
quando se convertem, buscam as regras como uma âncora, para se firmar nas
terras de uma “certeza do que está fazendo”. Já outras, viviam o catolicismo de
maneira tão laxa que, após o primeiro contato verdadeiro com a doutrina e suas
regras, acabam captando apenas a matéria e não a forma, virando inclusive
apologeta de rede social baseando os argumentos apenas nas normas, códigos e
frases soltas, sem captar a verdade e a essência por trás da norma.
Não é
nenhuma novidade uma tendencia a ética do dever. Ela, inclusive, é vista, de
certa forma, no comportamento farisaico bíblico onde os “doutores da lei”
seguiam firmemente e de maneira fria as normas, a chegarem a tal ponto de
criaram uma soberba tão grande no espirito, que o coração ficou endurecido e no
final, vimos o que foram capazes de fazer quando a Verdade surgiu e escancarou
as hipocrisias e o vazio de amor e compaixão em suas almas.
Difere-se,
porém, em forma, dos citados anteriormente porque os católicos inseridos neste
erro estão buscando vivenciar melhor a fé e de alguma forma acham que assim vão
se aproximar de Cristo e de seu corpo que é a Igreja, mas materialmente acabam
cometendo o mesmo erro. Abre-se, por fim, duas possibilidades: ou ocorrerá uma
opressão da liberdade e da consciência no espirito, fazendo a fé ser algo
totalmente insuportável, porque tudo se tornará “preceito”, “regra”, etc., tendo
como consequência a depressão, afastamento e até mesmo a apostasia ou, a
soberba eventualmente tomará conta do inconsciente, onde o achar-se piedoso,
devoto, no caminho da santidade, será confundido com o “sigo os preceitos de
maneira correta.”
O
apostolo São Paulo alerta-nos: “A letra mata, mas o espirito vivifica.” (II Cor
3,6). E mais adiante nos dá a chave para
a solução deste problema:
“Em
consequência, a inteligência deles permaneceu obscurecida. Ainda agora, quando
leem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece abaixado, porque é só em
Cristo que ele deve ser levantado. Por isso, até o dia de hoje, quando leem
Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Esse véu só será tirado quando se
converterem ao Senhor. Ora, o Senhor é Espírito e, onde está o Espírito do
Senhor, aí há liberdade.” ( II Cor 3, 14-17)
Apesar
de propriamente estar falando de uma outra questão, podemos adaptar totalmente
para o problema trabalhado neste texto. É fato que a ética do dever e o
moralismo acabam criando um véu no coração dos fiéis, tornando a razão obscurecida
e, como diz o apóstolo, é onde está o Espírito do Senhor, que tudo isso é
deixado e acontece a verdadeira liberdade da alma. Não se descarta aqui que a
doutrina é composta de regras, porque essencialmente o é, mas se trata da
maneira de viver essa doutrina ligada a Verdade, que é Cristo Jesus.
Na
substância da doutrina, por trás do véu do regimento, está Ele, o ressuscitado
e é por Ele, com Ele e nEle que somos capazes de amar a doutrina e segui-la, não
de maneira que me oprima, buscando normativas incessantemente, e sim de uma
forma a qual me conceda a verdadeira liberdade de espírito. Não precisamos de
tudo ditado, citado e localizado como regra para identificar um pecado ou um
erro, porque se fosse assim, teríamos de ter decorado não só os dez mandamentos
como também toda a teologia moral.
Precisamos
ter a livre consciência fundamentada sobre a rocha da união com Cristo, porque
é a primazia dela que te guiará a uma verdadeira vida de devoção e entrega a
Deus. Vejamos os exemplos dos apóstolos: não eram grandes doutores da moral e
sim homens simples e humildes que, sobretudo na descida do Espírito Santo,
adquiriram a verdadeira profundidade dos ensinamentos e do amor de Cristo de
tal forma em suas almas que foram capazes de viver, até o martírio, sua fé. E
não só eles, como inúmeros santos os quais sequer tinham conhecimento de
teologia moral, regras, doutrina, mas tinham a liberdade da sua alma unida ao
amor por Deus.
Tenhamos
uma vida em estado de graça e na vivência dos sacramentos, e coloquemos Cristo
como prioridade e assim seremos capazes de vivermos a doutrina de maneira
sincera, com nossa consciência tranquila e bem fundamentada. Se por acaso
procurarmos estudar a doutrina, sempre ter em mente que ela é um instrumento
para me aproximar daquEle que é amor e da Igreja, que não a organizou para nos
oprimirmos e sim com a finalidade de nos fazermos Santos, amarmos mais a Deus
de maneira apropriada e por fim chegarmos no céu para contemplá-lo por toda a
eternidade.
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