A Filosofia no Brasil.




Não é fácil desenvolver uma cronologia exata sobre o surgimento das filosofias no brasil, mas, pouco importa pra nós aqui neste texto, pela independência, pelo método e articulação,  os nomes que apresento respondem por si só a singularidade da filosofia brasileira.  Vejamos, o primeiro da ordem e para mim o mais completo,  Raimundo Farias Brito, sendo considerado como um dos maiores nomes do pensamento filosófico do país e autor de uma das mais completas obras filosóficas produzidas originalmente no Brasil, em que identificou os planos do conhecimento e do ser, trazendo de volta um retorno à metafísica tradicional, de caráter espiritualista.

Para Brito, o espírito é “a energia que sente e conhece, e se manifesta, em nós mesmos, como consciência, e é capaz, pelos nossos órgãos, de sentir, pensar e agir”. Partindo desse ideal espiritualista, o filósofo cearense passou por duas grandes fases.  Um pluralismo teísta, que atinge o ápice na obra (O Mundo Interior). Aqui, o pensamento de Britto é espiritualista, embora, na primeira, esse espiritualismo possa se chamar “paralelista”. Na primeira fase, Brito compreende a realidade através da substância única, que é a luz, manifestando-se sob duas faces: a natureza e a consciência. Numa famosa sentença ele diz que; “A natureza é Deus representado, a luz é Deus em sua essência e a consciência é Deus percebido”. 

Nesse percurso, nosso filósofo chega a afirmar que a consciência é a coisa em si, manifestando-se o cosmos como o seu fenômeno. Contudo, é na sua fase final, que Brito renega seu antigo monismo e concebe uma causa primária pessoal de onde todas as coisas são criadas, Deus, que é a coisa-em-si por excelência, sendo o espírito humano uma realidade secundária e todos os seres uma ideia divina, de modo que os corpos são fenômenos do pensamento divino. Isso o leva a identificar a metafísica à psicologia, entretanto, numa psicologia que Elias Tejada chamou de “supercientífica” e transcendente, definida como “ciência do espírito”. Em sua fase definitiva, Brito adotava uma teoria realista e pluralista. Assim, afirmava a dualidade real da consciência e do mundo e a multiplicidade das substâncias. 

Outro nome é de Mario Ferreira dos Santos, ele desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de Filosofia Concreta. Se há um ‘’ponto de convergência universal’’ da filosofia, é necessário que a busca desse ‘’objeto de estudo’’ pressuponha um método de investigação universalmente válido que permite ao filósofo um conhecimento mais rigoroso da realidade, seja ela qual for. Na busca por um método que permita ao filósofo debruçar-se sobre a realidade em todos os aspectos possíveis de serem investigados, Mário Ferreira desenvolveu o que ele chamou de ‘’Decadialética’’, um método de tomar qualquer objeto de estudo sob dez campos diferentes de realidade. São eles: Campo do Sujeito x objeto, O Campo da atualidade x virtualidade, etc, etc.

Ao todo, são dez campos de investigação que a dialética resolve em cinco planos, denominados ‘’pentadialética’’, em que um objeto pode ser de fato estudado: como unidade, como parte de um todo, como capítulo de uma série, como peça de um sistema (estrutura de tensões) e como parte do universo. Segundo Mário Ferreira, seguindo esse método, é possível investigar qualquer área da realidade, examinando-a com rigor matemático todo seu conjunto de possibilidades e efetividades. Em resumo, tanto a decadilética quanto a pentadialética formam um método de conhecimento da realidade cujo esforço gira em torno de provar a possibilidade de se estudar problemas reais que transcendem a subjetividade. A realidade, tomada como objeto de estudo ou método de conhecimento, é concreta. 

Vicente Ferreira da Silva, pioneiro em trabalhos sobre lógica contemporânea e fenomenologia no Brasil. Como lógico, Vicente foi assistente do Filosofo Norte Americano Quine, que demonstrou admiração por Vicente em artigos como a obra de Vicente Ferreira da Silva em lógica e Vicente Ferreira da Silva e a lógicaEm um momento posterior, Vicente passou a se dedicar aos estudos da fenomenologia, da arte, das religiões e ,por fim, aos mitos. Baseando-se na filosofia de Schelling e Martin Heidegger, Vicente inverte a noção de mythos e logos de modo a propor a filosofia como uma espécie de desdobramento em relação aos mitos. Em sua última fase, Vicente concebe uma filosofia que corresponde um novo tipo de humanismo, não teocêntrico, mas sim teogônico como projeção do divino. Alem disso,  Vicente foi notório por introduzir Heidegger no Brasil, sendo o pensador alemão a principal influência de sua carreira. Nesta fase, Vicente estudou as noções do ser e do sagrado, da finitude e da dimensão transcendente, enfatizando o mito, a arte e a poesia. Para ele a dependência que nos atrela à vida social tem um alcance muito maior do que a satisfação de necessidades econômicas. Segundo o autor, o homem não se basta a si mesmo não só em sentido físico, como também em sentido fundamental, pois a autocompreensão de seus empreendimentos postula uma ordem de vigências sociais que condiciona todas as tarefas particulares.

Outra figura importante é Newton da Costa, matemático, lógico um dos pensadores brasileiros mais reconhecidos no exterior. Da Costa é reconhecido principalmente pela formulação da lógica paraconsistente, seus trabalhos, divulgados em mais de 250 obras, abrangem a filosofia da ciência, como física, as teorias da verdade, os fundamentos da matemática, a economia, a teoria da computação e o direito, entre outros campos. Sua genialidade está na sua obra "sistemas lógicos paraconsistentes" aonde ele entende que a  existência de proposições contraditórias não implica a trivialidade dos sistemas. As implicações destes sistemas lógicos têm importância acadêmica e prática tanto para os fundamentos quanto para as aplicações de ciências como direito, matemática, física e engenharia. Sem contar a estensão por exemplo do conceito escolástico de verdade, formulando, à maneira de Alfred Tarski, uma noção, a teoria da quase verdade que então aplicou aos fundamentos da ciência.

Padre Lima Vaz, foi filósofo, padre jesuíta,  autor de uma vasta obra filosófica, o professor Lima Vaz possuía uma sólida e vasta cultura científica, bem como um amplo conhecimento filosófico de todo o pensamento ocidental. Vinculado fundamentalmente à Metafísica clássica, possuía um vivo interesse pelo pensamento moderno e seus principais representantes, deixando-se seriamente questionar pela modernidade. Sua síntese filosófica pessoal apoiava-se em três grandes influências: Platão, Tomás de Aquino e Hegel. Nos seus últimos escritos, Lima Vaz buscava recuperar a idéia de sistema no sentido da articulação ordenada do pensamento, sem a qual não há leitura coerente da realidade, e a filosofia se esvai em gratuitos jogos de linguagem. A partir desta idéia de sistema Lima Vaz constrói, principalmente, sua Antropologia Filosófica e sua Ética Filosófica. Seu último livro, Raízes da Modernidade, propõe para o nosso tempo, de incertezas e de renovadas articulações, o humanismo teocêntrico como itinerário para a realização plena do ser humano em sua existência pessoal e social. 


Por fim, temos a filosofia de Manfredo Araújo de Oliveira que se destaca particularmente pela recepção crítica da filosofia transcendental com a qual ele teve especial contato a partir do Mestrado em Teologia, encontrando professores como Juan Alfaro e Bernard Lonergan, e do Doutorado em Filosofia na alemanha, sob a orientação de Max Muller. Sua obra abrange desde ilações de historiografia filosófica até a abordagem propriamente sistemática de questões que concernem tanto à filosofia prática quanto à filosofia teórica. Para nós,  sua interpretação, torna-se indispensável a compreensão daquele que devemos tomar como o seu problema fundamental. Sua obra mais interessante é a Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea de, outra mais recente,  "Ontologia em debate no pensamento contemporaneo", podemos identificar como preocupação permanente do autor a tentativa de superação da filosofia da subjetividade, característica do pensamento moderno, sobretudo depois da viragem transcendental da filosofia operada por Kant. 



Bibliografia: 


A metafísica do ser primordial, Manfredo de Araujo.

Reviravolta linguístico-pragmática na filosofia contemporânea, Manfredo de Araujo.

Raízes da Modernidade, Lima Vaz.

 Filosofia Concreta, Mario Ferreira dos Santos.

O Mundo Interior, Raimundo Farias Britto.

sistemas lógicos paraconsistentes, Newton da Costa.

Ontologia em debate no pensamento contemporaneo, Manfredo de Araujo.


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