Uma Análise dos 4 Evangelhos

 •O que é um Evangelho?

 O termo vem do grego  εὐαγγέλιον, que significa "boa nova" ou "boa notícia". Também chamados de "Memórias dos apóstolos" por Justino, teólogo do século II.

Atualmente, é difícil se deparar com esse termo e não associar imediatamente com os 4 livros bíblicos que contêm a base do cristianismo, é neles que estão os ensinamentos de Jesus e as informações sobre Sua vida.

O conjunto dos 4 Evangelhos é certamente uma das partes mais interessantes do Novo Testamento, ver as bases de cada Evangelho, o caráter diferencial de cada um, suas principais motivações... este humilde artigo irá tratar de tais questões.


Os 4 Evangelistas


•A Vida dos Evangelistas 

Antes de tratar dos Evangelhos em si, é importante saber sobre os homens que, com inspiração divina, escreveram tais obras.

-A Vida de São Mateus Evangelista

Também conhecido como Levi, filho de Alfeu (o apóstolo São Tiago Menor também era filho de Alfeu, mas não se sabe se é o mesmo Alfeu), inicialmente era um coletor de impostos (lembrando que os coletores de impostos eram vistos como traidores do próprio povo, sempre associados às práticas abusivas, não à toa vemos na Bíblia os coletores de impostos tratados como pecadores), mas foi chamado por Jesus para segui-lo, tornando-se um dos Doze Apóstolos. Escreve seu Evangelho para a comunidade judaica (nota-se isso pelo grande número de referências à Escritura judaica, além da maneira que ele se referia aos costumes e às instituições dos judeus), no intuito de convertê-los.

Pregou o Evangelho por mais de uma década (inclusive acredita-se que foi responsável pela conversão de Santa Ifigênia da Etiópia), até seu martírio. Existem conflitos sobre os motivos do martírio de São Mateus, mas a maioria das versões diz foi por conta do descontentamento do rei da Etiópia (lugar onde se acredita que São Mateus morreu) na época, Hitarco.

Caravaggio. Martirio di San Matteo. 1599. Óleo sobre tela, 323 x 343.


-A Vida de São Marcos Evangelista 

São Marcos (acredita-se que se chamava, na verdade, João Marcos) não foi um dos Doze Apóstolos, mas foi contemporâneo de Jesus, além de ter sido companheiro de São Paulo e São Pedro. Acredita-se que escreveu seu Evangelho para os fiéis romanos (dada a maneira que ele explica costumes judaicos, que seriam estranhos aos destinatários do Evangelho, além da utilização de termos latinizados).

Não se sabe tanto sobre a vida de São Marcos, mas a Tradição acredita que ele tenha sido o fundador da Igreja de Alexandria, uma sé apostólica do cristianismo primitivo.

Foi morto em Alexandria, acredita-se que por pregar um Deus diferente dos deuses tradicionais da região. Como forma de punição, amarraram-no em um cavalo e o fizeram ser arrastado até a morte, tornando-se um mártir.

-A Vida de São Lucas Evangelista

São Lucas também foi autor dos Atos dos Apóstolos, foi um médico e também foi companheiro de São Paulo. Acredita-se que escreveu seu Evangelho para os gentios (considerando que ele escrevia de uma maneira fácil de entender para pessoas que não estavam acostumadas com o aramaico).

Muito é dito sobre seu nível enquanto historiador (especialmente pelo caráter histórico presente em seu Evangelho, que será comentado posteriormente), alguns estudiosos defendem que São Lucas não deveria ser tratado como um historiador propriamente dito, como Mark Powell e Robert Grant, [1][2] mas outros também o tratarão como um grande historiador.

Nas palavras de William Mitchell Ramsay: "Lucas é um historiador de primeira categoria; suas declarações não são só confiáveis... [Ele] deveria ser colocado no mesmo patamar dos grandes historiadores." [3]

Nas palavras de Edward Musgrave Blaiklock: " Pela sua precisão de detalhes... Lucas está, de fato, do lado de Tucídides. Os Atos dos Apóstolos não são produtos falsos de uma imaginação piedosa, mas um registro confiável." [4]

Morreu na Grécia também como um mártir, crucificado.

São Lucas exibindo uma pintura de Nossa Senhora. Giovanni Francesco Guercino. 1563. Óleo sobre tela, 220x180. 



-A Vida de São João Evangelista 

Irmão de Tiago Maior (um dos Apóstolos), foi o apóstolo mais amado por Jesus. Ele foi muito próximo de Nosso Senhor e testemunhou eventos importantes de Sua vida, esteve presente na Transfiguração e na Crucificação, por exemplo.

Como é dito por Scott Hahn, era comum interpretar o Evangelho de São João no contexto da cultura grega, é mais correto entender ele no panorama judeu (vendo a maneira que ele trata dos símbolos bíblicos e litúrgicos associados a Israel e de alguns descendentes dos israelitas).[5]

Acredita-se que São João foi um dos dois dos doze Apóstolos que não foi martirizado (junto de Judas Iscariotes, que se suicidou), apesar das perseguições por conta de sua fé. 

Foi importante para a popularização do cristianismo, fundando igrejas na Ásia Menor. Acredita-se que no fim de sua vida, São João morou em Éfeso e morreu lá de causas naturais.

Jesus e São João, o Discípulo Amado.




•Os Evangelhos Sinóticos e o Evangelho de São João 

Antes de tratar dos Evangelhos em si, é bom entender a diferença entre os Evangelhos Sinóticos (São Mateus, São Marcos e São Lucas) e o de São João.

Os Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas recebem o nome de Evangelhos Sinóticos por conta do seu nível de semelhança. Eles seguem um padrão ao falar da vida de Jesus, e nos três há uma grande parcela de histórias que se repetem. Já o Evangelho de São João tem um caráter único, que será comentado no próximo tópico.


•As Particularidades de Cada Evangelho 

-O Evangelho de São Mateus 

O primeiro Evangelho da Bíblia é o que possui o caráter messiânico mais notável dos quatro, há um claro objetivo de mostrar Cristo como o Messias de Israel.

Como foi dito anteriormente, São Mateus escreveu o Evangelho tendo por objetivo converter os judeus, e isso é notável por conta das referências a Escritura judaica/Antigo Testamento (por exemplo, quando São Mateus, no capítulo 2, faz referência ao livro de Jeremias, capítulo 31, a mesma coisa com o capítulo 1 do Evangelho e o livro 7 de Isaías, são dezenas de citações...), referências essas que um público gentio não entenderia. São Mateus mostra como Jesus é o Messias das profecias do Antigo Testamento, ele mostra a concretização das profecias para eles.

Ajudando mais ainda a construir o caráter messiânico do Evangelho, há o fato de que São Mateus aborda muitas e muitas vezes o Reino dos Céus, algo que já era comentado no Antigo Testamento (Daniel 7:13-14, por exemplo).

O Reino dos Céus, citado dezenas de vezes no Evangelho, é o reino proclamado por Cristo, é o cumprimento do juramento de Deus de estabelecer o Reino de Davi para sempre.

Segundo Scott Hahn, o Reino dos Céus é entendido em três âmbitos: 

1) Ético: o Reino dos Céus convoca aqueles que vivem da maneira ensinada por Jesus, como vemos em São Mateus 18:1-4, onde Jesus diz que só entra no Reino dos Céus aquele que é humilde como uma criança.

2) Eclesiástico: o Reino dos Céus se instaura no mundo com a Igreja. Isto é visto em São Mateus 16:18, famoso trecho da Bíblia, onde Jesus edifica Sua Igreja (sendo este o único Evangelho a citar a Igreja).

3) Escatológico: a plena e final manifestação do Reino dos Céus ocorrerá no fim dos tempos. [6]

O símbolo de São Mateus é o anjo alado em forma de homem, por conta do fato do Evangelho começar descrevendo a ascendência (humana, obviamente) de Jesus. Simboliza também a razão e a humanidade de Deus (Deus que se fez homem).


-O Evangelho de São Marcos 

Este é o Evangelho mais curto, é extremamente legível e relata de maneira breve os acontecimentos, focando nos eventos centrais que se referem à salvação. A sua esquematização simples dá um caráter introdutório a ele.

São Marcos provavelmente escreveu este Evangelho para os fiéis romanos, uma vez que é comum encontrar explicações de coisas que apenas os judeus entenderiam, por exemplo: a tradução do termo "Talita cumi" em São Marcos 5:41.

Há um grande foco nos aspectos humanos de Jesus, é no Evangelho de São Marcos que se encontra as passagens onde Cristo sentia fome, cansaço, raiva. (4:35-41 e 11:12-33, por exemplo).

É bem aceita a tese de que o Evangelho de São Marcos foi o primeiro a ser escrito, e então os Evangelhos Sinóticos posteriores foram escritos fundamentando-se nele.

O símbolo de São Marcos é o Leão, que simboliza a voz que clama no deserto no início do Evangelho (1:3). Simboliza também a força, a coragem e a ressurreição de Cristo.



-O Evangelho de São Lucas 

O terceiro Evangelho é certamente o mais histórico e detalhista nos acontecimentos (especialmente os acontecimentos da vida se Jesus), daí surge a questão do nível de São Lucas enquanto historiador. São Lucas escreveu bastante sobre a vida particular e familiar de Jesus.

São Lucas também é conhecido como 'o evangelista de Nossa Senhora'. O Evangelho aborda a Anunciação e a Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel, além de comentar sobre a história da vida dela.

Este Evangelho foi escrito em uma linguagem acessível aos gentios, diferentemente do primeiro Evangelho, não há aqui trechos que apenas os judeus da época entenderiam. 

Scott Hahn comenta como São Lucas enfatiza a questão salvífica universal, e coloca ela como a temática principal deste Evangelho, como é visto no versículo 47 do capítulo 24, a salvação é para todas as nações. [7]


Há também uma grande preocupação acerca da questão dos humilhados, excluídos, pobres... a importância de sempre se lembrar que os humilhados serão exaltados.


O símbolo do Evangelho de São Lucas pode ser representado por um touro ou um bezerro, que têm a ver com o sacrifício para a expiação dos pecados.



-O Evangelho de São João 

O último Evangelho canônico, o Evangelho não-sinótico, o Evangelho mais teológico dos quatro.
Quando ele foi escrito, a questão da natureza divina de Cristo já estava melhor esclarecida, é o Evangelho que apresenta Jesus como Logos Divino.

Este também é um Evangelho muito simbolista, São João explica questões de matéria teológica usando de símbolos, como: 
1)no capítulo 1, com a Luz e as Trevas, representando a luta entre o Bem e o Mal, onde Cristo é a Luz;
2) no capítulo 3, onde o termo "carne" simboliza o imanente, e o termo "espírito" simboliza o Divino;
3)ainda no capítulo 3, onde a terra simboliza o ministério de João Batista, e o céu simboliza o ministério de Jesus, superior por seu caráter divino e universal.

Apesar de tudo, este Evangelho é que menos tem parábolas, é um Evangelho profundamente filosófico quando se observa nele os ensinamentos de Jesus.

Vale notar uma peculiaridade deste Evangelho acerca da Crucificação, apesar de São João não comentar sobre muitos episódios da Paixão de Cristo (como a agonia de Jesus no Monte das Oliveiras), ele é o que mais detalha o processo de Crucificação. É no capítulo 19 que se vê a maior quantidade de informações sobre a morte de Jesus. Certamente esse nível de detalhismo tem a ver com o fato de São João ter presenciado o evento.

Finalizando, segundo Scott Hahn, o Evangelho de São João focaria no chamado "Deus como família", há uma relação familiar entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não apenas isso, focaria também na família composta de Deus (o Pai) e os homens (os filhos), Cristo chega para conduzir os filhos à casa do Pai. [8]

A Águia simbolizaria a visão profunda e teológica que o Evangelho de São João tem para com Cristo, uma vez que o animal é caracterizado pela sua boa visão. Simboliza também a subida de Jesus aos céus e Sua capacidade de contemplar o que está abaixo Dele.



Recomendação de Leitura: 

-O Evangelho de São Mateus, O Evangelho de São Marcos, O Evangelho de São Lucas, O Evangelho de São João (de Scott Hahn e Curtis Mitch);
-Homilia IV sobre Ezequiel, de São Gregório Magno;
-Comentários aos Evangelhos de São Mateus e São Marcos, de São Jerônimo;
-A Vida de Cristo, do Venerável Fulton Sheen.

Além dos dois, a parte do texto sobre as características dos Evangelhos foi escrita tendo em vista conversas que tive com outros leitores somadas com minha leitura sobre o tema. As informações acerca da vida de cada evangelista, no geral, estão na própria Bíblia, mas o que realmente ajudou a escrever sobre isto foram os artigos católicos sobre a vida dos santos.


Notas:

[1] What Are They Saying About Luke? (de Mark Powell) p.6;

[2] A Historical Introduction To The New Testament (de Robert Grant) cáp.10;

[3] The Bearing Of Recent Discovery On The Trustworthiness Of The New Testament (de William Mitchell Ramsay) p.222

[4] The Archaelogy Of The New Testament (de Edward Musgrave Blaiklock) p.96

[5] O Evangelho de São João (de Scott Hahn e Curtis Mitch) p.20

[6] O Evangelho de São Mateus (de Scott Hahn e Curtis Mitch) p.23

[7] O Evangelho de São Lucas (de Scott Hahn e Curtis Mitch) p.21

[8] O Evangelho de São João (De Scott Hahn e Curtis Mitch) p.21








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