Tamanha influência e importância desse grande pensador, Suarez transita entre aquilo que Leibniz chamou de "philosophia perennis" e "philosophi novi". O grande marco de seu método está no fato e no tratamento robusto que ele trouxe à "Ontologia". Vejamos, no cerne de sua ontologia essencialista, Suarez distingue dois elementos conceituais fundamentais. O primeiro é o conceito formal, ou seja, o próprio ato pelo qual o intelecto concebe
um objeto, a noção comum que se designa como conceito; o conceito
objetivo é, ao contrário, a própria coisa, a noção, que é imediatamente
oferecida ao intelecto pelo conceito formal.
Assim, o conceito formal do boi é o ato pelo qual concebemos esse conceito objetivo que é a noção de boi incluída em sua definição. Perguntar-se o que é o ser é buscar, dessa forma, qual conceito objetivo corresponde a esse termo no pensamento. Pois bem, todo conceito objetivo corresponde um conceito formal e vice-versa. Por conseguinte, trata-se para nós de saber que realidade o intelecto apreende e
expressa, quando pensa o ser.
Ao abordar esse problema, Suárez explica que, o ser "ens" pode ser tomado como particípio e, sempre significa o ato de ser precisamente como exercido. Com efeito, tomado como particípio, o ser é simplesmente o mesmo que efetivamente existir. Por outro lado, o ser pode ser tomado como um substantivo, no caso em que significa a essência formal de uma coisa como aquilo que tem ou pode ter existência "esse". Além disso, pode-se dizer que o ser nominal significa a própria existência "ipsum esse", embora não como exercido, mas como algo capaz ou apto a existir, potencial.
Trata-se, com efeito, de saber se todo juízo, mesmo o
juízo de existência, é um juízo de atribuição. Aliás, é por isso que, em sua
significação primeira, o termo ens parece ter designado inicialmente todo ser
dotado de existência atual e propriamente real. aquilo que o verbo "Esse" propriamente designa,
da qual ele é o particípio presente. Porém, por uma extensão espontânea desse
sentido, o "ens" logo passou a designar, além do sujeito que possui a
existência, aquele que simplesmente pode possuí-la. Portanto, "ens" torna-se um nome, que designa toda essência real, ou seja, não fictícia pelo
pensamento a priori, mas verdadeira e capaz de existir de fato.
Todavia, outras diferenças emergem entre o ser nominal e o ser participial. Como particípio, ser sempre con-significa o tempo. Assim, quando venho proferir a proposição “Renzo Existe”, por exemplo, a proposição é verdadeira se e somente se Renzo realmente existe quando a proposição é afirmada, pois a existência nunca pode ser dita de algo que não existe realmente. Essa mesma distinção entre ser nominal e ser participial, bem como praticamente o mesmo exemplo que o próprio Suárez aduziu, a proposição “ Socrates não é” diz respeito a esse existere, mas a inexistência de Socrates não torna falsa a proposição “Socrates é humano”, pois esse existe pertence apenas a ser tomado como um particípio.
No entanto, o ser tomado como um substantivo significa algo como “ter uma essência”, cujo ser é dividido nas dez categorias. Assim, mesmo que Socrates não exista atualmente, a proposição “Socrates está sendo "ens" é verdadeira se tomada no sentido nominal de ser. É por isso que, para Suárez, o ser tomado como substantivo não significa o tempo, pois o “ser”, tomado como ser real, é atribuído não apenas às coisas existentes, mas também às naturezas reais consideradas em si mesmas, sendo existentes ou não. É importante ressaltar que Suárez insiste que, com relação ao ser nominal, embora a existência seja prescindida (abstraída), a existência não é excluída nem negada. Por isso que, a referência existencial de algo é decisiva para sua própria realidade. O ser nominal ou, como ele também o chama, uma “essência real” só pode ser chamado de 'real' se, por si mesmo, for apto a ser ou existir.
Nesse ínterim, entramos ao lado de Suárez, na querela escolástica entre existência x essência. Nosso Dr observou que foram propostas três soluções ao problema: Uma foi a distinção real, a outra a distinção modal e por fim, a distinção de simples razão. Mas, ele próprio interpreta a distinção
real como distinção de duas coisas. A primeira opinião, nos diz, (“é
que a existência seja certa coisa completamente distinta, de modo real, da
entidade da essência da criatura”).
Mas, eis um adendo, sem atribuir a esse fato mais importância
do que ela talvez tenha tido realmente na formação das ideias de Suárez sobre
esse ponto, é importante, entretanto, salientar que ele é pressuposto em toda a
sua discussão do problema. O que ele se incumbe de demonstrar, contra os tomistas por exemplo, é que não se pode dizer sobre a essência criada, constituída
em ato fora de suas causas, que ela se distingue realmente da existência, como
se distinguem duas entidades distintas, de modo que sejam duas coisas distintas.
Como definido pelo próprio Suárez, o ponto em discussão consiste em saber
se o que ele designa como o ser da essência atual "esse actualis essentiae", ou
seja, a essência compreendida como um ser atual, requer ainda, para
poder existir, esta atualidade distinta que se chama de existência. Portanto,
parece evidente que toda a argumentação de Suárez repousa sobre uma noção
definida daquilo que se chama um ser real. Trata-se da noção de uma essência "integralmente atualizada", e aquilo que Suárez pergunta, depois de posta essa
noção, é se ainda falta a seu objeto algo para existir.
À questão colocada nesses
termos, uma resposta negativa se impõe. Postulemos uma essência atual
qualquer – a do jacaré, por exemplo. Será que podemos considerá-la como
possuindo a atualidade plena que lhe cabe enquanto ser real se tivéssemos de
acrescentar que lhe falta a existência como algo alheio? Evidentemente que para Suarez, não. Dizer que uma
essência é um ser atual digno desse nome "verum actuale ens" um ente
verdadeiramente atual equivale a dizer que ela existe.
Mas, Suárez vai mais adiante e urge uma aporia, essa essência atual não difere da eternidade ou difere? Lembremos disso; o ser da
essência puramente possível não é nada de real; portanto, atribuir um ser
eterno à essência não é senão dizer dela que é eterna; um ser real é aquele que
tem a essência uma vez criada no tempo:
“ergo esse actuale, sicut temporale est,
ita etiam est vera existentia”
(“portanto, o ser atual é tal como o temporal, assim
também é a verdadeira existência”)
Nessa definição, a existência não pertence
à essência senão de maneira contingente e que, consequentemente, ela se
distingue desta realmente, uma
vez que, como vimos, a essência não merece verdadeiramente o título de ser
senão uma vez atualizada na existência pela vontade de Deus.
A compreensão existencial do ser de Suárez tem implicações para sua explicação da analogia de Atribuição intrínseca também. Se a diversidade dos seres pode ser superada por seu acordo em existir, que dá origem ao conceito unificado de ser objetivo, essa existência não é nada (realmente) distinta da diversidade dos próprios seres. Com efeito, a identidade entre ser e existência é uma das teses mais complexas da metafísica Suáreziana.
O Dr. eximius sustenta que: "A existência como existência corresponde ao ser como tal e é intrínseca ao seu caráter, seja em potência ou em ato, tomado como seria ser." Assim, o conceito de ser não é apenas uma abstração que não tem importância existencial ou relação com a diversidade de seres que existem em graus desiguais ou equívocos. Enquanto o ser é transcendente, não forma um gênero lógico. Em vez disso, o ser é intimamente transcendente e, portanto, sempre carrega uma ordem existencial ao seu "inferiora" . Aqui fica claro a genialidade do nosso autor de mostrar-se único. Por um lado de noção de Suárez de “transcendência íntima”, se distancia e faz oposição direta à teoria transcendental de Scotus, não apenas distingue sua visão da transcendentalidade de Scotus, mas também determina a razão pela qual ele rejeita a univocidade em prol da analogia, por outro lado se distância da noção de atribuição extrínseca dos Tomistas em analogia, mostrando seu caráter único enquanto grande teólogo que foi.
Bibliografia:
Ser e Essência, Etienne Gilson.
Francisco Suárez, Disputas metafísicas
Aertsen, Jan. Filosofia Medieval como Pensamento Transcendental: De Filipe, o Chanceler (ca. 1225) a Francisco Suárez.
HEIDER, Daniel. “O conceito de ser de Suárez é analógico ou unívoco?” American Catholic Philosophical Quarterly.
Muito bom esse artigo, foi muito feliz na sua abordagem
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