René Guénon: Sobre alguns símbolos herméticos-religiosos

 


René Guénon. “A proposito di qualche simbolo ermetico-religioso” in: “La tradizione e le tradizioni” (Edizioni Mediterranee, 2003; p.118-124)


Tradutor: Athos Fabri Babinski


Nota: aspas (“”) dentro dos colchetes sinaliza as palavras originais do texto em italiano, quando não estiver entre aspas (mas ainda entre colchetes) o texto é acréscimo meu.


Sobre alguns símbolos herméticos-religiosos


Temos pensado que não seria privado de interesse dar algumas explicações complementares de alguns símbolos já precedentemente examinados nesta Revista. Tais explicações, é verdade, não se referem própria e diretamente ao Sagrado Coração (1); mas, como há leitores que hão requerido estudos sobre simbolismo mais em geral (cf.julho 1925, p.169), acreditamos que esses não estarão fora de lugar aqui. 


Um dos símbolos ao qual fazemos alusão é o Janus bifrons que foi reproduzido por Charbonneau-Lassay após o seu artigo sobre quadrantes solares [“quadranti solari”]. A interpretação mais habitual é aquela que considera os dois rostos [“volti”] de Jano [“Giano”] como representando respectivamente o passado e o futuro; esta interpretação é perfeitamente exata, mas essa não corresponde senão à um dos aspectos do complexo simbolismo de Jano. Deste ponto de vista, há uma observação muito importante a se fazer: entre o passado que não é mais e o futuro que não é ainda, o verdadeiro rosto [volto] de Jano, aquele que guarda o presente, não é, diz-se, nem um nem outro daqueles que podemos ver. Este terceiro rosto, em efeito, é invisível porque o presente, na manifestação temporal, é apenas um [“non è che un”] instante imperceptível (2); mas, quando se se eleva acima das condições de esta manifestação transitória e contingente, o presente contém, ao contrário, toda a realidade. O terceiro rosto de Jano corresponde, em um outro simbolismo, ao olho frontal de Shiva, completamente invisível, pois não é representado por algum órgão corpóreo, e do qual temos tido ocasião de falar a propósito do Santo Graal (agosto-setembro 1925, p.187), como significando o «senso da eternidade». Segundo a tradição hindu, um vislumbre deste terceiro olho reduz tudo em cinzas, isto é, destrói todas manifestações; mas, quando a sucessão é transmutada em simultaneidade, o temporal em intemporal, todas as coisas habitam no «eterno presente», de modo que a destruição aparente não é, em realidade, senão uma «transformação». É fácil compreender através destas considerações porque Jano pode legitimamente ser considerado como uma representação daquele que é, não só o «Mestre do tríplice tempo» (designação que é igualmente aplicada a Shiva), mas também, e primeiramente, o «Senhor da Eternidade». No entanto, o «Mestre dos tempos» não pode ser ele mesmo submisso ao tempo, do mesmo modo que, segundo o ensinamento de Aristóteles, o motor primeiro de todas as coisas, o princípio do movimento universal, é necessariamente imovel. É o Verbo Eterno que a Sagrada Escritura designa como o «Antigo dos dias» [Ancião dos Dias], o Pai da idade ou dos ciclos da existência (é este o sentido próprio do termo latino sæculum); e a tradição hindu também o atribui o título equivalente de Purâna-Purusha.


Nos dois rostos de Jano do qual falava no seu artigo, Charbonneau havia visto «algo de um homem ancião, do lado do tempo transcorrido [passado, “trascorso”], e outro, mais jovem, fixado no que há de vir [futuro, “avvenire”]»; e isso, com base naquilo que temos dito, era efetivamente muito plausível. Todavia, pareceu que, nesse caso, se tratava de um Jano andrógino, do qual se mostra igualmente outros exemplos frequentes; havíamos comunicado a observação a Charbonneau, o qual, depois de haver novamente examinado a figura em questão, há pensado como nós que o rosto a direita tinha certamente que ser um rosto feminino. Sob este aspecto, Jano é comparável a Rebis dos hermetistas medievais (da res bina, coisa dupla, conjunção de duas naturezas em um ser único), que é representada também sob a forma de um personagem de duas cabeças, uma de homem e outra de mulher; a única diferença é que este Rebis é Sol-Lua, como indicam os emblemas acessórios que ordinariamente o acompanham, enquanto Janus-Jana é sobretudo Lunus-Luna. A motivo deste título na sua cabeça está a meia-lua, no logo da coroa que ele porta na representação reproduzida em Regnabit (além disso, haveria muito a dizer sobre relações entre esta coroa e esta meia-lua); e é de notar ainda que o nome de Diana, a deusa lunar, não é senão uma outra forma de Jana, o aspecto feminino de Jano. Se nos limitamos a sinalar este aspecto do simbolismo do antigo deus latino, sem ir mais longe, é porque ainda existem outros dele sob o qual cremos que seja mais útil insistir um pouco aqui.


Jano é o Janitor [guardião?*] que abre e fecha o ciclo anual, e as duas chaves que ele porta frequentemente são daquelas duas portas solsticiais. Por outro lado, ele é também o deus da iniciação ao mistério (initiatio deriva in-ire e, segundo Cícero, o nome de Jano tem a mesma raiz do verbo ire); sob este novo aporte, também as duas chaves, uma de ouro e outra de prata, são aquelas dos «grandes mistérios» e dos «pequenos mistérios»; não é natural que se reconheça uma prefiguração das chaves que abrem e fecham o Reino dos Céus? De resto, em virtude de um certo simbolismo astronômico que parece ter sido comum a todos os povos antigos, existem vínculos muito estreitos entre os dois significados que havíamos indicado; o simbolismo ao qual fazemos alusão é aquele do ciclo zodiacal, e não é sem razão que estes, com as suas duas metades ascendentes e descendentes que têm os seus pontos de partida respectivos aos dois solstícios de inverno e de verão, se encontram figurados sob o portão de tantas igrejas medievais. Vê-se aqui aparecer um outro significado dos dois rostos de Jano: ele é o “Mestre das duas vias» as quais dão acesso às duas portas solsticiais, aquelas duas vias da direita e da esquerda que os Pitagóricos representavam pela letra Y (3), e que a tradição hindu, por sua vez, designa como a «via dos deuses» e a «via dos ancestrais» (dêva-yâna e pitri-yâna; a palavra sânscrita yâna tem ainda a mesma raiz do latim ire, e a sua forma a aproxima singularmente ao nome de Janus). Estas duas vias são também, em um certo sentido, aquela dos céus e aquela dos infernos; e se notará que os dois lados aos quais essas correspondem, a direita e a esquerda, são aqueles no qual se dividem os eleitos e os condenados nas representações do Juízo universal que, igualmente, por uma coincidência muito significativa se encontra frequentemente sob as portas das igrejas.


De outra perspectiva, segundo a Kabbalah hebraica, a direita e a esquerda correspondem respectivamente a dois atributos divinos: a misericórdia (Hesed) e a justiça (Din); estes dois atributos correspondem claramente a Cristo, mais especificamente quando se considera o seu papel de Juiz dos vivos e dos mortos. Os Árabes, fazendo uma distinção análoga, falando de «Beleza» (Djemâl) e «Majestade» (Djelâl); pode-se compreender, com estas últimas definições, porque estes dois aspectos são retratados com um rosto feminino e um masculino. Se voltarmos a imagem que é a ocasião deste texto, vemos que, no lado do rosto masculino, Jano porta precisamente um cetro, emblema de majestade, enquanto, no lado do rosto feminino, ele porta uma chave; nesta chave e neste cetro se subentende, assim, o conjunto de duas chaves que são o signo mais frequente do próprio Jano, e talvez tornem ainda mais claro um de seus significados, que é o do duplo poder que emana de um único princípio: o poder sacerdotal e o poder real. É isto, em efeito, ainda um outro significado entre os muitos, por vezes concordantes, que se podem achar implícitos no simbolismo de Jano, e que o faz equivalente, a tal propósito, à uma representação de Cristo; aos leitores de Regnabit certamente não é necessário explicar que ao Cristo pertencem eminentemente e por excelência o Sacerdócio e a Realeza Suprema.


A Kabbalah hebraica sintetiza o simbolismo dos quais estamos falando na imagem da árvore sefirótica, que representa o conjunto dos atributos divinos, e onde a «coluna da direita» e a «coluna da esquerda» tem o significado que havíamos indicado agora a pouco; esta árvore é chamada «A Árvore da Vida» (Ets ha-Hayim). Resulta bem evidente que uma representação estritamente equivalente se encontra no símbolo medieval da «Árvore dos Vivos e dos Mortos», descrito por Charbonneau-Lassay no seu recente artigo sobre «Árvores emblemáticas» [“Alberi emblematici”] (agosto-setembro 1925, p.178), e que evoca também  a ideia de «posterioridade espiritual», muito importante nas diversas doutrinas tradicionais.


Segundo as Escrituras, a «Árvore da Vida» foi colocada no centro do Éden (Genesis, II,9), e, como já explicamos no nosso ensaio sobre a lenda do Santo Graal, o Éden é esse mesmo o Centro espiritual do Mundo. Esta árvore representaria, assim, o invariável eixo em torno do qual se cumpre a revolução de todas as coisas (revolução a qual também o ciclo zodiacal remete); e aqui o porquê da «Árvore da Vida», nas outras tradições, ser também chamada «Árvore do Mundo». Elencamos somente algumas das árvores que, nos vários povos, são utilizadas para simbolizar esta «Árvore do Mundo»: o figo na Índia, o carvalho para os Celtas e a Dodona, o freixo para os Escandinavos, a tília para os Germânicos. Pensamos que precisamos considerar também como imagem da «Árvore do Mundo» ou «Árvore da Vida» presente nos ex-libris herméticos do século XVIII que Charbonneau reproduziu no mesmo artigo (p.179): aqui, é representada como uma acácia, símbolo hebraico de imortalidade e incorruptibilidade, assim como de ressurreição. É precisamente, sempre segundo a tradição hebraica, da «Árvore da Vida» que emana aquele «orvalho celeste» da quais temos tido ocasião de falar já em diversos momentos, e graças a qual há a ressurreição dos mortos.


Apesar da presença da acácia, os ex-libris em questão não têm nenhuma característica especificamente maçônica; as duas colunas da direita e da esquerda da árvore sefirótica não são de nenhuma forma representadas, como estariam nesse caso, com as duas colunas do Templo de Salomão. Em vez destes, existem dois prismas triangulares de terminação piramidal, postos em sentido inverso um ao outro, e com o sol e a lua, respectivamente, acima deles. Estes dois astros tão reportados constituem o mito [“motto”] Sol et Luna que acompanha as antigas crucificações (4), evocando ao mesmo tempo a ideia da Rebis hermética; trata-se de uma outra confirmação da relação muito estreita que existe entre todos os símbolos que temos aqui considerado. Quanto aos mesmos dois prismas, esses dão a imagens de dois ternários opostos que formam o «selo de Salomão», do qual temos falado no nosso artigo sobre sinais corporativos [“marchi corporativi”] (novembro 1925); e também estes dois ternários se encontram na mesma disposição, evidentemente tendida [“voluta”], dos ramos e das raízes da própria árvore, disposição que recorda muito precisamente aquela da flor de lírio e das outras figuras heráldicas tendo por esquema geral o Crisma [“Crisma”].


Tudo isto é seguramente muito curioso tal que suscita novas reflexões; esperamos ao menos, no sinalar todas estas comparações, ter conseguido fazer sentir na medida do possível a identidade profunda de todas as tradições, prova manifesta da unidade originária delas, e a perfeita conformidade do Cristianismo com a tradição primordial da qual se encontram em toda parte vestígios esparsos.


Para terminar, gostaríamos de gastar algumas palavras a uma objeção que nos foi feita a propósito das relações que havíamos sublinhado entre o Santo Graal e o Sagrado Coração, embora, a dizer a verdade, a resposta que foi dada naquele tempo nos pareceu satisfatória (cf.Regnabit, outubro 1925, p.358-359).


Pouco importa, em efeito, que Chrétien de Troyes e Robert de Boron não tenham notado, na antiga lenda das quais esses não são mais que adaptadores, todo o significado que nesta é contido; mesmo assim este significado se encontra realmente, e não pretendíamos haver feito outra coisa que o tornar explícito, sem introduzir nada de «moderno» na nossa interpretação. De resto, é bem difícil dizer quanto é correto [“giusto”] o que os escritores do seculo XII viram ou não viram da lenda; e, sendo estabelecido o fato que esses desempenhavam [“giocavano”], no fim, somente um papel de simples transmissores, concedemos a eles, com muita boa vontade, que sem dúvida não deveriam ver tudo o que queriam os seus inspiradores, isto é, os verdadeiros detentores da doutrina tradicional.


Por outro lado, quanto aos Celtas, precisamos  recordar aquelas precauções que se impõem quando se volta a falar deles, em totais faltas de documentos escritos; mas porque se deveria supor, apesar dos indícios contrários que temos, que esses são os menos favorecidos dos outros povos antigos? Ora vemos em toda parte, e não somente no Egito, a assimilação simbólica estabelecida entre o coração e a taça [“coppa”] ou o vaso; em toda parte o coração é considerado como o centro do ser, centro ao mesmo tempo divino e humano nas múltiplas aplicações as quais isso dá lugar; em toda parte, a taça sacrificial representa o Centro ou o Coração do Mundo, a «habitação [“dimora”] da imortalidade» (5); o que mais é necessário? Sabemos bem que a taça e a lança, ou os deles equivalentes, carregam também outro significado além dos que temos indicado; mas, sem prolongar, podemos dizer que todos, por mais que possa parecer estranho aos olhos modernos, são perfeitamente concordantes entre si, e que exprimem em realidade as aplicações de um mesmo princípio sob diversos planos, segundo uma lei de correspondência sobre a qual se funda a harmoniosa multiplicidade dos sentidos que estão inclusos em todo o simbolismo.


Ora, que não somente o Centro do Mundo se identifica efetivamente com o Coração de Cristo, mas que esta identidade esteja notadamente indicada pelas antigas doutrinas, é o que esperamos poder mostrar em outro ensaio. Evidentemente, a expressão «Coração de Cristo», neste caso, deve ser entendida em um sentido que não é próprio daquele que podemos chamar o sentido «histórico»; mas ainda precisamos dizer que os fatos históricos estão, como todo o resto, traduzidos segundo o modo próprio das realidades superiores e se conformam a esta lei de correspondência a qual temos feito alusões, a única lei que permite explicar certas «prefigurações». Trata-se, digamos, do Cristo-princípio [princípio-crístico, “Cristo-principio”], isto é, do Verbo manifestado no ponto central do Universo; mas quem ousaria pretender que o Verbo Eterno e a sua manifestação histórica, terrestre e humana, não são de fato realmente e substancialmente um só e único Cristo sob dois aspectos diferentes? Ainda se toca aqui as relações entre o que é temporal e o que é eterno; talvez não convém de fato insistir nisso, porque estas coisas são justamente das quais somente o simbolismo permite exprimir na medida em que esses são exprimíveis. Em todo caso, é suficiente saber ler os símbolos para encontrar tudo isso que nós encontramos; mas infelizmente [“malogradamente”], sobretudo na nossa época, ninguém mais sabe ler.


  1. Cf. Le Sacré-Coeur et la légende du Saint Graal, in Regnabit, agosto-setembro 1925, que é citado mais abaixo; tr. it.: Il Sacro Cuore e la leggenda del Santo Graal, in René Guénon, Simboli della Scienza Sacra, Adelphi, Milano, 1975.

  2. É próprio, por esta razão, que certas línguas, como o hebraico e o arabe, não tem uma forma verbal correspondente ao presente.

  3. É aquele que representava, em uma forma esotérica, também o mito de Hércules entre a Virtude e o Vício. — Encontramos o antigo símbolo pitagórico, não sem surpresa, na marca impressa [“marchio dello stampatore”, nosso “carimbo”] de Nicolas du Chemin, desenhado por Jean Cousin.

  4. A cruz é posta, nestas representações, entre o sol e a lua, exatamente como a «Árvore da Vida» o é aqui; e quase não há necessidade de fazer notar que também a cruz é um Lignum Vitae.

  5. Poderíamos ter recordado também o athanor hermético, o vaso no qual se realiza a «Grande Obra», e o cujo o nome, segundo alguns, seria derivado do grego athanatos, «imortal»; o fogo invisível que não se apaga [“trattenuto perpetuamente”] corresponde ao calor vital que reside no coração. Poderíamos, igualmente, fazer afrontas com um outro símbolo muito difundido, aquele do ovo, que significa ressurreição e imortalidade, e sob o qual teremos ocasião de retornar. — Sinalizamos, em outra parte, ao menos a título de curiosidade, que a taça dos Tarot (a qual a origem é muito misteriosa) foi substituída pelo coração nas comuns cartas do jogo, o que é um indício da equivalência destes dois símbolos.

    

           

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