Henri Bergson, o método: tempo, espaço e intuição.
A epistemologia Bergsoniana é surpreendente. Bergson como expoente máximo da corrente Espiritualista no século XIX-XX trouxe inovações interessantes, a mais importante, sem duvida, está no âmbito gnosiológico, sobre isso, trarei um pequeno excerto para que possamos compreender seu método.
Tempo e Espaço enquanto categorias:
Em Bergson temos o Tempo como espaço e o tempo vivido. O correr do tempo uniformizado e interpenetrado, ou seja, os momentos temporais somados uns aos outros formam um todo indivisível, aquilo que ele chama de o tempo vivido. Esse tempo aqui entendido, é oposto ao tempo físico/ fenomênico ou sucessivo, que é passível de ser calculado, quantificado e analisado. O tempo vivido é incompreensível para a inteligência lógica por ser qualitativo, enquanto o tempo físico é quantitativo. Tempo e espaço não pertencem, dessa forma, a uma mesma natureza. Tanto que podemos afirmar que a consciência (duração interna) e o tempo espacializado se opõem.
Pois bem, é justamente nesse desenrolar que chegamos naquilo que Bergson denominou de duração, ou seja, ela não pode ser compreendida através da inteligência lógica-reflexiva ou discursiva, também não pode, por consequência, ser entendida linearmente como sucessão, visto que não há como calcular ou analisar o tempo vivido qualitativo. Ora, se não há como "esmiuçar", apreender ou saturar a duração percebida pelo espírito, também não há como prever os momentos temporais da experiência vivida, apenas da experiência física que se repete facilmente, logo, a duração do tempo vivido e experimentado pelo espírito é imprevisível, uma espécie de novidade incessante.
Desse modo, Tudo que pertence à faculdade espacial, isto é, à variáveis das leis físicas da mecânica clássica, é suscetível de ser repetida, decomposta e traduzida pela lógica epistêmica, como, por exemplo, a medição do tempo por um relógio. Já o tempo vivido ou duração interna ou simplesmente consciência é o passado vivo no presente e aberto ao futuro no espírito que compreende o real de modo imediato. É um tempo completamente indivisível por ser qualitativo e não quantitativo. A duração, não sendo compreendida por meio da inteligência-técnica, também não pode, por consequência, ser entendida como sucessão linear de intervalos, já que ela é justamente o oposto disso, haja vista que não há como justapor ou analisar o tempo vivido qualitativo.
Destarte, chegamos no cerne do método epistêmico Bergsoniano, a distinção metodológica entre dois aspectos do método, o aspecto analítico e a intuição. Por um lado, o método analítico é considerado a mediação sujeito-objeto, o recorte da realidade, através ou utilizando-se as ferramentas lógicas do entendimento; a análise e a tradução, etc, etc. Através dele, temos a forma mediante o conceito do objeto, atunado assim como caminho dos conceitos, dos juízos, silogismos, análise e síntese, dedução e indução; apropriando-se do mundo através de ferramentas, calculando e prevendo intervalos do mesmo plano espaço-temporal. A tradução é a composição de símbolos linguísticos ou numéricos que, analogamente a primeira, também servem de mediadores. Ambas são meios falhos e artificiais de acesso a realidade.
Mas, por outro lado temos a intuição, ou seja, um processo imediato que nos proporciona o conhecimento intrínseco, concreto, absoluto do objeto. A intuição, penetra no interior da vida coincidindo com o objeto imediatamente, como diz Bergson, é a "visão do espirito pelo espirito". Em outras palavras, é a realidade sentida e compreendida absolutamente de modo direto. Somente a intuição pode garantir uma coincidência imediata com o real sem o uso de símbolos nem da repartições analíticas. A intuição pode ser entendida, dessa forma, como uma experiência metafísica, supra-lunar. Desse modo, Bergson conceitua a intuição como a faculdade suprema do impulso vital "élan vital".
Portanto, Intuição significa apreensão imediata da realidade por coincidência com o objeto, direta correlação com tempo vivido, de caráter qualitativo. Em outras palavras, é a realidade sentida e compreendida absolutamente de modo direto, sem utilizar as ferramentas lógicas do entendimento, sejam elas, a análise e a tradução. Contudo, o método analítico atua como uma ferramenta ou tradução, ou seja, a composição de símbolos linguísticos ou numéricos que, analogamente a primeira, também servem de mediadores. Para Bergson, ambas são meios falhos e artificiais de acesso a realidade. É somente a intuição que pode garantir uma coincidência imediata com a realidade sem símbolos nem repartições.
Bibliografia:
Evolução Criadora, Bergson, Henri.
Duração e simultaneidade, Henri Bergson.
Matéria e memoria, Bergson.
OBS; O termo intuição comumente usado por Bergson deriva do latim, intuitione, formado a partir da união de in- "em, dentro" e tuere "olhar para, guardar", ou seja, inflexão do francês "intuition" (contemplação, conhecimento imediato), originado do latim.

Comentários
Postar um comentário