Conhece-te a ti mesmo. (tradução de Tiago)

 Tradução do texto Connais-toi toi-même de René Guénon. 





Nós citamos habitualmente esta frase: “conhece-te a ti mesmo”, mas muitas vezes perdendo de vista o seu sentido exato. Quanto à confusão que reina em relação a sua matéria, podemos levantar duas questões: a primeira concerne à origem dessa expressão, a segunda, ao seu sentido real e a sua razão de ser. Certas leituras fazem crer que essas questões são inteiramente distintas e não possuem relação alguma. Com reflexão, e depois de se examinar com atenção, parece que estão relacionadas intimamente.

Se questionamos aqueles que estudam filosofia grega qual foi o homem que pronunciou pela primeira vez esta frase, a maior parte entre eles não hesitará em responder que o autor desta máxima é Sócrates, ainda que alguns pretendam atribuí-la a Platão e outros a Pitágoras. Quanto a essas falas contraditórias e tais divergências de opinião, nós temos o direito de concluir que esta frase não tem por autor algum desses filósofos e que não é por eles que se conseguirá procurar sua origem.

Nos parece lícito formular este aviso, que parecerá justo ao leitor quando este souber que esses filósofos, Pitágoras e Sócrates, não deixaram escrito algum.

No que se refere a Platão, ninguém, independente de sua competência filosófica, será capaz de diferenciar o que ele disse do que falou seu mestre Sócrates. A maior parte da doutrina deste último conhecemos por Platão, e sabemos de outra parte que foram dos ensinamentos de Pitágoras, que Platão recolheu parte dos conhecimentos apresentandos em seus diálogos. Podemos ver, então, que é extremamente difícil delimitar o que veio de cada um desses três filósofos. Aquilo que é atribuído a Platão é igualmente atribuído a Sócrates, e, dentre as teorias visadas, algumas são anteriores aos dois e são provenientes da escola de Pitágoras ou do próprio Pitágoras.

Para dizer a verdade, a origem da expressão estudada remonta a muito anteriormente que os três filósofos nomeados. Precisamente, ela é muito mais antiga que a história da filosofia e ultrapassa o próprio domínio da filosofia.

Diz-se que estas palavras estavam escritas acima do Portão de Apolo, em Delfos. Elas foram então adotadas por Sócrates, assim como foram adotadas por outros filósofos como um dos princípios de seus ensinamentos, malgrado a diferença que possa existir entre suas diversas doutrinas e os objetivos pretendidos por seus autores. É provável, aliás, que Pitágoras tenha empregado esta expressão muito antes de Sócrates. Com isso, esses filósofos se propunham a mostrar que seus ensinamentos não eram estritamente pessoais, que provinham de um ponto de partida muito mais antigo, de um ponto de vista muito elevado, compartilhando da própria fonte de inspiração original, espontânea e divina.

Nós constatamos que esses filósofos estavam, quanto a isso, muito distantes dos filósofos modernos, que depositam todos os seus esforços para exprimir qualquer coisa de nova, a fim de colocá-la como expressão de seu próprio pensamento, para se mostrar como os únicos autores de suas opiniões, como se a verdade pudesse ser a propriedade de um homem.

Nós agora vamos expor por que os filósofos antigos pretendiam ligar seus ensinamentos a esta expressão ou a qualquer outra similar, e por que podemos dizer que esta máxima é de ordem superior à toda filosofia.

Para responder a segunda parte desta questão, diremos que a resposta está contida no sentido original e etimológico do termo “filosofia”, que teria sido empregado, pela primeira vez, por Pitágoras. O termo ‘‘filosofia’’ exprime propriamente o fato de se amar Sophia, a aspiração a ela mesma, ou ainda, a disposição necessária para adquiri-la. Esse termo é ainda utilizado para qualificar a preparação para a aquisição da sabedoria e especialmente os estudos que podem ajudar os filósofos, ou aquele que pende a se tornar “sophos”, isto é, sábio.

Assim, como o meio é somente um ser para o fim, o amor à sabedoria não será ele mesmo o constituinte da sabedoria. E com o fato de que a sabedoria é idêntica à verdadeira consciência interior, podemos dizer que a consciência filosófica não é outra coisa que uma consciência superficial e exterior. Ela não pode, nela e por ela mesma, possuir valor próprio, constituindo somente um primeiro degrau na via para a consciência superior e verdadeira que é a sabedoria.

É bem conhecido dentre aqueles que estudam os filósofos antigos que esses tinham dois modos de ensino, um exotérico e outro esotérico. Tudo o que está escrito pertence somente ao primeiro, aparentemente. Quanto ao segundo, nos é impossível conhecer exatamente a sua natureza, porque era reservado a poucos, possuindo um caráter secreto. Tais qualidades não teriam uma razão de existir se não houvesse nelas algo de superior à simples filosofia.

Nós podemos ao menos pensar que esse ensinamento esotérico está em relação estreita e direta com a sabedoria e que não faz sentido apelar somente à razão ou à lógica, como é o caso da filosofia*, que faz uso somente da consciência racional. É ainda admitido pelos filósofos da Antiguidade que a consciência racional, isto é, a filosofia, não é mais do que o degrau mais alto da consciência, e, portanto, ainda não é a sabedoria.

Pode-se dizer que a sabedoria é ensinada como se ensina a consciência exterior, pela palavra ou pelos livros? Isso é impossível, e nós veremos as razões. Mas podemos desde já afirmar que a preparação filosófica não é suficiente, mesmo como uma preparação, pois a sabedoria não concerne a uma faculdade limitada como a razão, mas sim à realidade do ser como um todo.

Existe, portanto, uma preparação à sabedoria muito mais elevada que a filosofia, que não concerne a razão, mas à alma e ao espírito, e que podemos nomear de preparação interior; esta, parecia constituir os degraus mais altos da escola de Pitágoras. A qual influenciou tanto à escola de Platão quanto à escola neoplatônica de Alexandria, porém, aparecendo diretamente, dentre os neo-pitagóricos do mesmo período.

Se nessa preparação interior ainda fossem usadas palavras, seriam elas utilizadas como símbolos destinados a aprofundar a contemplação interior. Para essa preparação, o homem é conduzido a certos estados que o permitem ultrapassar a consciência racional, na qual anteriormente se encontrava. E sendo este nível acima da razão, está também ele acima da filosofia, porque o nome filosofia é sempre empregado para designar qualquer coisa que pertença somente à razão.

Entretanto, é espantoso que os modernos cheguem a considerar a filosofia, assim definida, como sendo completa em si mesma, esquecendo assim o que há de mais elevado e superior.

Os ensinamentos esotéricos eram conhecidos nos países orientais, até serem propagados pela Grécia, onde receberam o nome de “mistérios”. Os primeiros filósofos, em particular Pitágoras, tiveram de ligar a eles seus ensinamentos, assim os exibindo como não sendo outra coisa mais que uma expressão nova de ideias antigas. Existiam muitos mistérios, das mais diversas origens, sendo aqueles que influenciaram Platão e Pitágoras ligados ao culto de Apolo. Os mistérios tinham sempre um caráter reservado e secreto, com o termo “mistério” significando etimologicamente silêncio total. Aquilo a que se referem não pode ser exprimido por palavras, mas somente por meio de uma via silenciosa. Os modernos, porém, ignoram todo método que não aquele que implique no ensinamento por meio de palavras, acreditando, por causa disso, que não havia ali, nenhum ensinamento.

Podemos afirmar que este ensinamento esotérico fazia uso de figuras, símbolos e de outros meios visando levar o homem aos estados interiores, permitindo assim que alcançasse a consciência real, que constitui a sabedoria. É esse o objetivo final de todos os “mistérios” e de coisas semelhantes que possam ser encontradas em outros lugares.

Quanto aos “mistérios” que estavam especialmente ligados ao culto de Apolo e ao próprio deus, deve ser mencionado que ele é o deus do sol e da luz, e que, por meio de seu sentido espiritual, é a fonte de todo o conhecimento do qual brotam as ciências e as artes.

É dito que os ritos de Apolo vieram do Norte e que se ligavam a uma tradição ancestral, encontrada em livros sagrados como os Vedas hindus e o Aversa persa. Essa origem nórdica pode ser encontrada especialmente em Delfos, que se tornara um centro espiritual universal, havendo em seu templo uma pedra chamada “omphalos”, que representava o centro do mundo.

Pensamos que a história de Pitágoras e o próprio nome de Pitágoras tenham uma ligação certa com os ritos de Apolo, que fora chamado de Pythios, sendo dito também que Pythio é o nome original de Delfos. Ademais, a Mulher que recebeu a inspiração dos Deuses no templo chamava-se Pythie. O nome “Pitágoras” significa, portanto, ``Guia de Pythie ``, título aplicado ao próprio Apolo. Conta-se, também, que foi Pythie que declarou Sócrates como o mais sábio dos homens. Parece, então, que Sócrates tinha uma ligação com o centro espiritual de Delfos, assim como Pitágoras.

Adicionemos que se todas as ciências são atribuídas a Apolo, o são mais particularmente a geometria e a medicina. Na escola pitagórica, a geometria e todos os ramos da matemática ocupavam o primeiro lugar na preparação à consciência superior. Em relação a essa consciência, as ciências não eram deixadas de lado, mas, contrariamente, empregadas como símbolos da verdade espiritual. Em convergência, Platão considerava a geometria como uma preparação indispensável a todos os outros ensinamentos e escrevera sob a porta de sua escola o seguinte: “Ninguém entre aqui que não seja geômetra”. Compreende-se o sentido dessa frase ao compará-la a outra fórmula de Platão, “Deus sempre pratica a geometria”, e se pontuando que, ao mencionar o Deus geômetra, Platão se refere a Apolo.

Não se deve surpreender, portanto, que os filósofos da antiguidade tenham feito uso da frase inscrita sob a entrada do templo de Delfos, tendo-se em vista suas ligações com os ritos e com o simbolismo de Apolo.

Depois do que foi dito, podemos compreender o sentido real da frase estudada e o erro dos modernos a seu respeito. A incompreensão procede de considerá-la como um simples ditado de um filósofo, aproximando-a assim de seus próprios pensamentos. Entretanto, o pensamento antigo se diferencia profundamente do pensamento moderno. Devido à incompreensão mencionada, atribuem à frase um sentido psicológico; mas o que chamam de psicologia constitui somente o estudo dos fenômenos mentais, que não são mais do que modificações exteriores do ser — e, portanto, alheios a sua essência.

Outros, sobretudo aqueles que atribuem a frase a Sócrates, a veem em um sentido moral, como sendo referente à procura de uma lei aplicável na vida prática. Todas essas interpretações exteriores, apesar de não inteiramente falsas, não justificam o caráter sagrado que tinha originalmente, responsável por um sentido muito mais profundo que aquele a que gostam de atribuí-la. Ela significa primeiramente que nenhum ensinamento exotérico é capaz de conceder a consciência real, que o homem consegue encontrar somente nele mesmo, pois toda consciência não pode ser adquirida senão por uma compreensão pessoal.

Sem essa compreensão, ensinamento algum pode levar a um resultado eficaz, e o ensinamento que não desperta na pessoa qualquer ressonância pessoal, não pode culminar em qualquer modo de conhecimento. Por isso disse Platão que “tudo que o homem aprende já está nele”. Todas as experiências, todas as coisas exteriores que estão ao seu entorno não são mais do que uma ocasião para ajudá-lo a alcançar a consciência do que já está nele mesmo. Esse despertar é o que ele chama de “anamnesis”, que significa reminiscência.

Se isso é verdadeiro, para toda consciência, o é ainda mais para uma consciência mais elevada e mais profunda. Quando o homem avança em direção a esse estado, todos os meios exteriores e sensíveis se tornam mais e mais insignificantes, até que percam totalmente a sua utilidade. Se podem ajudar a alcançar a sabedoria em algum grau, são insuficientes para que realmente se consiga adquiri-la. Na Índia, é dito atualmente que o verdadeiro guru ou mestre se acha no próprio homem, e não no mundo exterior, embora, uma ajuda exterior possa ser útil no começo, por preparar o homem a encontrar nele e por ele mesmo aquilo que não poderia encontrar em outro lugar, especialmente no nível da consciência racional. É necessário, para que se consiga isso, realizar certos estados que vão sempre ainda mais profundamente dentro do ser, em direção ao centro, que é representado pelo coração, onde a consciência do homem deve ser transferida para que se torne capaz de alcançar o conhecimento real. Esses estados, realizados nos mistérios antigos, são degraus dentro da via da transposição do mental ao coração.

Havia, como dissemos, uma pedra chamada Omphalos no templo de Delfos, que representava tanto o centro do ser humano quanto o centro do mundo, seguindo a correspondência que existe entre o macrocosmo e o microcosmo (isto é, o homem), de tal modo que tudo o que é em um está em conexão direta com o que está no outro. Avicena disse: “Você pensa ser nada, e está em ti tudo o que reside no mundo.”

É curioso de assinalar a crença difundida na Antiguidade de que o Omphalos caiu do céu, e teríamos uma ideia exata do sentimento dos gregos a respeito dessa pedra ao dizermos que era de certo modo similar ao que hoje sentimos para com a pedra negra da Kaaba.

A semelhança que existe entre o macrocosmo e o microcosmo faz com que um seja a imagem do outro, e a correspondência dos elementos que os compõem mostra que o homem deve se conhecer para que possa conhecer todas as outras coisas, pois, em verdade, ele pode as encontrar dentro de si. É por essa razão que certas ciências — sobretudo aquelas que fazem parte da consciência antiga, e que são praticamente ignoradas por nossos contemporâneos — possuem um duplo sentido. Por sua aparência exterior, essas ciências dizem respeito ao macrocosmo e podem ser consideradas justamente sob esse ponto de vista. Mas, ao mesmo tempo, elas têm um sentido muito mais profundo, que se refere ao próprio homem e a via interior, pela qual ele pode realizar o conhecimento em si mesmo, realização que não é outra coisa que o seu próprio ser. Aristóteles disse: “o ser é tudo aquilo que ele conhece”, isto pois, quando se conhece o real — não sob sua aparência ou sob seu nome — , o conhecimento e o ser são somente um e a mesma coisa.

As sombras, segundo Platão, são o conhecimento pelos sentidos e o conhecimento pela razão, a qual, embora seja mais elevada, ainda possui sua fonte nos sentidos. Quanto à consciência real, ela está acima do nível da razão; e a sua realização ou a realização do próprio ser, é semelhante a formação do mundo, de acordo com a correspondência que apontamos acima; isso porque, certas ciências podem descrevê-la sob a aparência dessa formação. Este duplo sentido faz-se presente nos mistérios antigos, como também se encontra em todos os outros tipos de ensinamentos que visam o mesmo dentre os povos do oriente.

Parece que no Ocidente esse ensinamento existiu igualmente na Idade Média, ainda que hoje tenha desaparecido de forma completa, de modo que a maioria dos ocidentais não tenha ideia alguma de sua natureza ou até mesmo de sua existência.

De tudo o que foi dito, vemos que a consciência real não tem por caminho a razão, mas sim o espírito e o ser tomado em todos os seus estados, que são a conquista do conhecimento e da sabedoria suprema. Em verdade, aquilo que pertence à alma, e também ao espírito, representa somente os degraus em direção à essência íntima que é o verdadeiro ‘Si’, e que pode ser encontrado somente quando o ser atinge seu próprio centro, com todas as suas potências estando unidas e concentradas como em um único ponto, no qual todas as coisas lhe aparecem, estando contidas nesse ponto como seu primeiro e único princípio, e assim se pode conhecer todas as coisas como em si mesmo e de si mesmo, como a totalidade da existência na unidade de sua própria essência.

É fácil observar o quão longe a frase está, originalmente, da psicologia -no sentido moderno do termo- e vai mais longe que um conhecimento mais verdadeiro e profundo da alma, que é somente o primeiro passo desta via. É importante lembrar que o sentido moderno do termo árabe nefs não se restringe à alma, pois ele se acha na tradução árabe da frase então considerada, enquanto o termo grego equivalente, psyché, não aparece no original. Não deve ser atribuído a esta expressão seu sentido comum, pois é certo que ele possui outro significado muito mais elevado que o torna comparável ao termo essência, e que se refere ao “Si” ou ao ser verdadeiro. Podemos citar, como prova disso, o que é dito na hadith como um complemento da frase grega: “Aquele que se conhece, conhece seu Senhor.”

Quando o homem se conhece em sua essência profunda, isto é, no centro de seu ser, é então que ele conhece seu Senhor. E conhecendo seu Senhor, ele conhece ao mesmo tempo todas as coisas, que dEle vem e a Ele retornam. Ele conhece todas as coisas na suprema unidade do Princípio divino, fora do qual, segundo a fala de Muhyiddin ibn Arabi, “não há absolutamente nada do que existe”, pois nada pode ser fora do infinito.

El-Ma’rifa, 1931.

Para Guénon, a filosofia se insere somente no domínio do saber humano e profano, sendo dela excluída o que o autor concebe como metafísica (conf. Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus).

Revisão da Tradução: Matheus

Revisão estilística e gramatical: Judith 


Link original: https://link.medium.com/W593wJcxEvb




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Erros de Carlos Alberto sobre a Dignitatis Humanae (de Nicolas Lisboa)

Pe. José Eduardo e a ideologia do continuísmo passapanista (de Nicolas Lisboa)

É possível discordar do ensino do Papa? (de Nicolas Lisboa)