Frei Clodovis Boff, A crise da Igreja Católica e a Teologia da Libertação - págs. 21-22

 


A raíz da crise: a Igreja deslocou seu centro de Deus para o mundo


Nossa tese se baseia nesta ideia simples: a Igreja declina porque a fé declina. De fato, a Igreja vive e sobrevive de fé. Falamos aqui de fé no sentido de uma fé pessoal, feita de experiência. Falamos, em suma, de uma "fé espiritualizada". Dependendo do grau dessa espiritualização, uma Igreja será tanto mais forte quanto mais for espiritual ou espiritualizada, e o contrário também é verdade. Que a Igreja Católica tenha um certo déficit de espiritualidade, mostra-o o fato de que q maioria dos buscadores de Deus vai procurar fora dela respostas às suas inquietudes espirituais.


Estamos naturalmente aqui falando da fé cristã enquanto fé na pessoa de Cristo, filho de Deus, Salvador. Porquanto, como mostrou em definitivo Romano Guardini, a essência da Igreja é Cristo. Em outras palavras: Cristo é o supremo articulus stantis vel cadentis Ecclesiae. Isso significa que, se a Igreja vive de Cristo, ela será tanto mais Igreja quanto mais fé e amor tiver em relação a Cristo. E, ao contrário, quanto mais se afastar de Cristo e se aproximar de qualquer outra figura ou valor, mais decairá como Igreja. Ora, se a Igreja hoje declina é porque se inclina é porque se inclina para o mundo, afastando-se de seu centro: a fé viva no Cristo vivo. Assim, se a Igreja perece é porque nela perece a adesão viva a Cristo. Se ela balança, é porque seu fundamento, Cristo, está balançando em seu coração e em sua vida. Isso, em teologia, é "óbvio ululante".


Poder-se-ia ainda perguntar: Mas por que a fé declina? Para além do processo geral de secularização, destacamos aqui apenas dois condicionantes (não raízes), um objetivo e outro subjetivo. O primeiro se deve aos exegetas e dogmáticos atuais, enquanto divulgam um Cristo "humano, demasiado humano". Esse Cristo pode ser atraente, mas será realmente objeto de fé, no sentido forte de entrega total de si, como define a Dei Verbum (n. 5)? É um Cristo que se pode adorar e dar tudo por ele, até a própria vida? É o Cristo dos apóstolos Paulo e João, de Niceia e dos Padres, dos mártires e de todos os santos? O segundo condicionante se deve à equivocada e desastrosa teologia da "fé implícita". Porquanto se, para ser cristão e se salvar, basta seguir a própria consciência ou lutar pelos pobres etc., então, para ter fé explícita (pleonasmo) em Cristo, com tudo o que ela comporta de pertença à Igreja, sacramentos, oração e missão explícita (outro pleonasmo)? Diga-me agora o leitor se uma igreja que prega um Cristo e uma fé dessas pode ainda ir para a frente!


Na atual discussão sobre a "crise da Igreja", há os que vêem suas causas maiores no interior da própria Igreja, enquanto esta manteria ainda as estruturas defasadas em relação à modernidade, e esses seriam os "liberais". Outros põem a causa no exterior, na medida em que a Igreja seria pouco comprometida com as grandes causas do tempo; esses seriam os "liberacionistas". Há, por certo, parte de verdade nessas posições. A nosso ver, entretanto, elas tocam fatores que apenas agravam a crise da Igreja, sem constituírem sua causa principal. Essa, para nós, é mais profunda ou, como diz o vulgo, data maxima venia, "o buraco é mais embaixo". Seja como for, entre liberais e liberacionistas existe algo em comum: ambos favorecem o pendor da Igreja para a secularização interna, com grande perigo de reduzi-la com o tempo a uma "ONG religiosa".





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