A controvérsia teológica entre o Papa e o Bispo de Alexandria no séc. III (de Nicolas Lisboa)

 

Dionísio de Roma, 25° Papa. Representou o lado latino na controvérsia teológica com o Bispo Alexandrino.

O cisma de 1054 costuma ser referência no tema do conflito histórico entre o cristianismo oriental e ocidental. Embora o bispado de Roma tenha protagonizado historicamente grandes embates com os orientais, como o Cisma Acaciano (484 d.C.), o monotelismo no sínodo de Latrão (669 d. C.) e o Iconoclasmo (754 d. C.), a excomunhão mútua entre Miguel I Cerulário e cardeal Humberto tornou-se parte do cânone historiográfico como o culminar das diferenças culturais e teológicas entre latinos e gregos.

Evento menos conhecido do público comum é o desenvolvimento trinitário incipiente nos séculos II e III, que gerou uma queda de braço nos bispados alexandrino e romano, caracterizado nas figuras de São Dionísio de Alexandria e seu xará São Dionísio de Roma. A  teologia do Logos de Santo Irineu e Tertuliano é absorvida na distinção hipostática da Escola catequética de Alexandria (Didaskaleion) contra os sabelianos, enquanto os romanos preferem falar da unicidade da monarquia divina em oposição à ambiguidade de alguns orientais.

Preocupados em salvaguardar a coeternidade do Verbo na unidade substancial (Mônade), censurando os resquícios subordinacionistas dos origenistas, a tendência monarquiana dos romanos ver o vocabulário da diversidade dos alexandrinos como uma perigosa inclinação ao triteísmo (acusação feita pelo Papa Calisto). Outros denunciavam como grave erro a descrição da subsistência do Logos como algo "produzido" (póiema).

No início da segunda metade do século III, na Líbia, o escândalo causado por imprecisões terminológicas do Bispo Dionísio alexandrino, na tentativa exagerada de expurgar uma crise local sabeliana, provoca a interposição do bispado de Roma, com o papa Dionísio tomando a frente na querela teológica sobre a relação do Filho com o Pai, condenando qualquer divisão ou separação da Tríade divina. A ênfase do papa recai na importância de preservar a indivisibilidade da santa Mônada, contra a tendência origenista de diversidade subsistente.

S. Dionísio de Alexandria responde seus críticos taxativamente sobre ter atentado contra a unicidade divina, negando ter feito uma divisão radical nas pessoas do Pai e Filho, e reformula sua posição confessando a existência de imprecisões linguísticas em seu ensino original, conforme alertado pelos romanos. Por fim, o significado da unicidade em Dionísio romano é integrado pelo alexandrino e chega-se ao apaziguamento do incidente com uma concordância parcial do modo que deve ser crido e ensinado a subsistência e a consubstancialidade na Trindade.


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